Crítica | Djo (Joey Keery), “DECIDE”

Na TV, o personagem da vida de Joe Keery conquistou a redenção no maior fenômeno da cultura pop mundial dos últimos anos, Stranger Things, série aclamada da Netflix. Seu trabalho amadureceu com o decorrer da história, o que fez Steve Harrington ganhar o coração dos cidadãos de Hawkins e do público ao redor do planeta. Se na frente das câmeras o norte-americano é quase unanimidade pela audiência do seriado, em cima do palco Keery parece estar trilhando seus caminhos com versatilidade e brilhantismo.

Joe não é o primeiro a se aventurar em outro meio e muito menos um passageiro de primeira viagem. Nomes como Jared Leto e Dylan Minette recentemente provaram que é possível ser bem sucedido nos dois maiores palcos da indústria. O multifacetado artista de 30 anos, que fez parte da banda de rock alternativo Post Animal há quase uma década, conquistou parte da mídia e dos fãs com o ótimo álbum de estreia Twenty Twenty, de 2019, sob a pele de sua outra persona, Djo. O disco levou o músico a realizar turnês pela América do Norte e entregar grandes performances em festivais como o Lollapalooza.

Se sob a pele de Harrington ele é conhecido pelo charme duvidoso e pela coragem ao defender os amigos adolescentes dos monstros do Mundo Invertido, na carreira musical, esta outra personalidade utiliza dos mesmos recursos para seguir o caminho contrário: o artista quer se manter fiel à ideia de não se limitar. Isso fica claro quando o ouvinte/espectador mergulha de cabeça em seu novo álbum, DECIDE, lançado no último mês de setembro.

Djo é uma figura misteriosa imersa na tecnologia pré millennial dos anos 90. Com peruca loura à la Kevin Parker, do Tame Impala, óculos escuros, um macacão branco e o bigode de quem parece não ter saído da puberdade, o músico não quer que visualmente sua carreira seja palatável para o mainstream. “Acho que no começo me vestir assim foi só uma forma das pessoas esquecerem quem eu sou e me livrar dessa conexão… ou, sei lá, é apenas uma maneira de me conectar à música e ao show”, disse Keery em uma recente entrevista, enfatizando a ideia de querer separar sua carreira como ator com a carreira musical. Ele completa: “Mas, no fim das contas, acabou se tornando esse personagem que eu interpreto ao vivo no palco. Acho que isso me permite relaxar e também acaba sendo uma espécie de elemento surpresa”.

Com estética influenciada até por Tyler, the Creator, artista quer sua música como prioridade. Ainda que por muitos ele continue sendo referência de beleza mesmo por baixo da imagem estranha e conflituosa de Djo — e, de fato, o ator tem naturalmente conquistado a postura de um sexy simbol indie da geração Z —, é evidente que esta sua persona se encontra fora dos padrões estéticos da indústria.

Dizem que um dos grandes diferenciais de um ator se dá pela facilidade e intensidade na entrega de mudanças drásticas nas formas de expressão. E, ainda que Joe esteja sendo notado pelas audiências só agora, é visível em toda a carreira que um dos maiores aspectos de sua personalidade é produzir trabalhos bem distintos.

A mudança é necessária para o amadurecimento e crescimento de um artista — nomes como Bring Me The Horizon, Paramore, Arctic Monkeys e até os brasileiros da Fresno são bons exemplos; e foi assim que Djo iniciou sua nova era ao lançar o excelente e dançante single “CHANGE”, carro-chefe de DECIDE, formado por 13 tracks.

Em quase quarenta minutos, o novo álbum do cantor e guitarrista é uma coleção de faixas profundas, pensantes e que andam de mãos dadas com melodias dance perfeitas para festas alternativas inspiradas pelas décadas de 80 e 90. E ainda que a premissa seja justamente se deixar levar pelas referências alternativas e pop rock de quase 40 anos atrás, olhos não podem ser fechados para a estética espacial que também está nos arredores do trabalho: há aqui canções que poderiam ter sido assinadas por Damon Albarn (Blur e Gorillaz), Tame Impala, Beach Fossils, Foster the People e até mesmo DEVO.

Ainda que seja uma viagem bate-volta, Djo se descobre durante a estadia em DECIDE. Quando o ouvinte acredita que entendeu o que está por vir, a sonoridade — ditada pelo excelente uso de sintetizadores à la Pet Shop Boys e DEVO — surpreende. É como se a mente principal por trás de seu criador vivesse experiências distintas conforme as tracks conversam entre si.

O segundo álbum da carreira solo de Keery parece estar emergindo a todo tempo nas influências daft punkianas do eu-lírico, mas não se compromete a abordar apenas o que antes já foi visto em Discovery (2001) ou Homework (1997). “Runner” é incendiária e inicia o trabalho com vozes dobradas e quase sirenes para criar a sensação de caos. A sequência “Gloom” é agigantada pela linha de baixo, estrela principal da faixa, que mais soa como um tiro explosivo de apenas 2 minutos abençoado por Stooges do que propriamente um indie alternativo da década atual.

Half Life” é um buraco negro que abandona suas propriedades para encontrar a claridade. Essa é uma das maiores qualidades da até então discografia do estadunidense: não ser refém de suas histórias. As composições começam a se tornar angustiantes, mas é crível que no final desse túnel haja muito mais do que apenas uma luz esperançosa, afinal, Djo é um otimista assumido.

Conforme Keery entende a necessidade de deixar a cômoda zona de conforto de lado para conseguir compreender suas nuances e expandir as próprias perspectivas, ele encontra o caminho rumo à vitória justamente na facilidade de se transformar. Esse é o motivo da existência de dois destaques do disco, a psicodélica “End Of Beginning” e a groovy “Change”. As canções são tão bem arranjadas e produzidas que é impossível que passem despercebidas.

Figure You Out”, é sensual e instigante. Djo explora sua qualidade vocal muito bem na track, a melhor aqui, entregando uma performance memorável que poderia facilmente ter sido gravada em uma jam ao vivo com Kevin Parker em seu homestudio. Brilhante.

O álbum termina com a raspy Slither”, outro enorme highlight, totalmente influenciada por b-sides de Iggy Pop e trazendo novamente à tona o que parece ser a grande referência de Keery — ainda que não seja quadrado para se limitar a isso: Talking Heads. Não há conversas paralelas, o encerramento da obra é um ultimato de esperança.

Fãs da new wave se apaixonarão e os jovens alternativos tornarão algumas destas canções em soundtracks oficiais por certo período de tempo. E, nesse caso, a validade do segundo álbum de estúdio de Djo é proposital: Keery quer que, assim como ele, a audiência compreenda a necessidade da mudança.

Feito especialmente para entregar otimismo e segurança na incerteza, DECIDE é uma jornada de autodescobrimento. Se o conjunto de 13 faixas vai durar eternamente nos fones ou nas vitrolas do público é difícil saber, mas contra fatos não há argumentos: a experiência é agradável e interessante o bastante para se fazer lembrar de Joe Keery não apenas pelo papel de galã jovial em Stranger Things, mas também como um dos nomes de maior potencial na música moderna.

A única questão que permanece no ar é se as histórias de Djo em algum momento cruzarão os caminhos das de Keery para, quem sabe, as multidões serem alcançadas por uma obra esteticamente teatral de um artista extremamente talentoso. No entanto, isso só a mente criativa de Joe pode decidir.

91/100

Por Matheus Izzo

Apaixonado por música e contar histórias desde os 14, assisti Almost Famous e sonhei que um dia seria William Miller. Hoje, trabalho na Universal Music e tento tornar meu sonho em realidade.