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Crítica: “MOTOMAMI” – ROSALÍA

Em MOTOMAMI, ROSALÍA provém tantos esplendores sonoros e visuais que faz com que sua opulência se torne uma característica única do disco.

Uma das definições favoritas para aqueles ligados em artistas musicais (em sua maioria populares) é dizer que algo possui um conceito. E onde a palavra melhor se aplica nessas extensas discussões sobre algum disco tê-lo ou não, é em uma ideia. Se a ideia transparece facilmente de uma forma que não exige muito a se pensar, isso é considerado uma boa execução, mas se o resultado tende a confundir mais do que envolver, pode ser que mesmo tendo um grande significado por trás acabe se tornando um exemplo ruim. Mas será que ser confundido, e dessa confusão mental inicial dar o pontapé para entender a real proposta, é algo bom?

Em alguns trabalhos logo de início é comum enxergarmos tudo como um grande emaranhado de sonoridades, visuais e execuções de uma forma que chega a assustar. E nesses momentos, só de pensar em tentar desamarrar o que parece pior que um nó de azelha já é tão exaustivo que nos vemos desistindo logo após a primeira ouvida. Desistir não é um problema, até porque nada é uma obrigação a ser entendido — e para cabeças mais extremistas não entender algo de primeira já é motivo suficiente para que não seja necessário vasculhar significados muito óbvios.

Em 2018, ‘El Mal Querer’, um dos discos mais aclamados (e também um dos melhores daquele ano) oferecia uma história tão abundante e atrativa aos ouvintes que procurar entender um pouco melhor sobre ele mal exigia qualquer esforço. Essa aplicação genial de uma ideia era a forma perfeita de explorar tudo o que queria ser dito sem entregar totalmente de bandeja, era algo tão envolvente e misterioso que quase atingia um patamar místico. Cada quebra cabeça era formado por um vídeo que se fazia difícil ser assistido, devido à vontade de pausar a qualquer instante para absorver determinado frame ou vasculhar cenários em busca de mais adições a uma caracterização já tão rica.

Após se despedir de algo tão grandioso e bem executado qual seria o próximo passo… como começar um projeto do zero de forma que ainda fosse possível oferecer um esquema tão único quanto o anterior? O que Rosalía conseguiu com seu terceiro disco foi transformar uma narrativa em um evento. Trechos de letras, efeitos sonoros, estilo e atitude estavam tão intrínsecos em sua persona que ela se tornou uma referência em si mesma. Era fácil entender a razão de cada passo dado para alimentar mais esse trabalho, que mesmo tão estufado ainda parecia faminto por mais e mais conteúdo significativo.

Se antes ela trazia uma abordagem bastante circular, onde cada faixa parecia sempre levar a próxima, em MOTOMAMI nos vemos olhando para um hexadecágono. Podemos partir do quinto lado para o oitavo, depois para o primeiro e decidir completamente sobre o sentido que vamos ouvir a obra. Onde independente da direção escolhida, essa viagem tem o poder de ser tão única que a próxima soaria como se fosse a primeira. Todas as músicas são munidas de tanta personalidade que nada é capaz de eclipsar o resto da tracklist, e o quebra cabeça aqui não é mais um modelo a ser seguido, e sim a ser criado e adaptado pelo próprio ouvinte.

Obviamente, como em qualquer disco, existem algumas peças que podem trazer um valor afetivo maior. “BULERÍAS” traz uma sensação coringa da cantora, aquela que ela costuma despertar facilmente em suas apresentações ao vivo: que é a de fechar os olhos e se imaginar em um ambiente local da terra de onde ROSALÍA vem. “CANDY” tem a dramaticidade em seu status mais exemplar, outro exemplo de algo que ela sempre soube fazer muito bem. E para quem acompanha a artista fora dos streamings já sabe que sua personalidade também emana fazer música pela diversão. Pesquisar samples dos mais inesperados e levar o reggaeton básico para um tom até que experimental são duas coisas já cativantes em toda sua discografia, “CUUUUuuuuuute” e “SAOKO” provam isso de forma nítida.

A criação de toda a proposta que ouvimos aqui é apenas maximizada devido a fama que a cantora alcançou, mas é muito fácil imaginar que tudo que é servido poderia ser executado com a mesma proeza caso a cantora não tivesse tanto apelo popular. É perceptível que sua visão para toda a estrutura de um projeto vem de referências bem executadas e estudos sobre a própria cultura. Talvez a única diferença seria poder se dar esse luxo de camuflar toda uma clara proposta com uma confusão inicial proposital, pois apresentar um disco tão vistoso de uma forma direta não tem tanta graça, mesmo podendo atingir o mesmo valor. Perceber tudo isso é se lembrar que estamos lidando com alguém que gosta de riquezas em todos os seus fatores.

Para Rosalía não basta um instrumental composto por poucas camadas, vídeos com looks monótonos ou apresentações sem trejeitos e movimentações exageradas, é necessário prover esplendores em cada um desses aspectos. E não há dúvida alguma que a magnificência de MOTOMAMI se faz possível devido a toda essa opulência característica e tão única.

Nota: 86/100

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