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Duna: Parte Um | Tão gigante quanto as areias de Arrakis

A adaptação de metade do 1º livro da saga é cinema ao máximo em nível visual, além de prover uma narrativa cativa e em certo ponto, eufórica

Ao assistir a experiência um tanto irreal ministrada pelos insondáveis planetas e regimes de Duna: Parte Um, uma das sensações que corrompe com todas as linhas racionais do nosso corpo é: como algo tão venerável tornou-se real? Tal questionamento surge para uma parcela de espectadores que assistiram ao filme e repararam o quanto a adaptação da obra baseada no livro um (metade dela, na verdade) de Frank Herbert, possui várias existências infinitamente bem prensadas, e é tão espetacular visualmente e limpo quanto o deserto de Arrakis.

O minimalismo implementado por Denis Villeneuve em suas produções não beira a perfeição, mas sim a atinge como um superaquecimento. E nessa obra de quase 160 minutos, tal poder se alastra por todo o corpo do filme, fazendo com que a chama se torne ainda maior quando nos damos conta que tal esplender visual é o responsável em suma importância, por nos proporcionar uma das melhores experiências do cinema recente e também por materializar um longa firme em certos momentos.

Imagem: DUNE (Warner Bros. Media)

O plot que queima o pavio é quase básico: temos a Casa Atreides, um dos vários feudos governamentais que se instalou na galáxia, recebendo um pedido/ordem para ir à Akarris e retomar a colheita de especiarias que o deserto esconde nas imensas dunas de areia. Antes, o lugar estava sob o comando da fascista Casa Harkonnen, regida pelo Barão Vladimir Harkonnen (que sob a sólida perfomance de Stellan Skarsgård mais parece um parasita ambulante hediondo). Tendo deixado o planeta sob condições que aos poucos mostram-se precárias, o Duque Leto, Oscar Isaac, a cada passo começa a descobrir que havia planos internos para a sua queda diante do novo posto. A partir daí, somos induzidos ao messias cósmico de Timothée Chalamet, histórias místicas e políticas sobre poder e exploração, mas também sobre o futuro, ou pelo menos parte dele.

Diante das 2 horas e 30 minutos, encaramos algumas partes que recebem maiores desmembramentos, infelizmente não o suficiente para manter os nervos do telespectador atento em toda a enorme duração; seria possível até ditar a escavação da história como capítulos, quase como a leitura de um livro que em alguns momentos parece apenas enganar pelas exuberantes imagens expostas em tela.

Devido ao material fonte, tudo visto aqui é densamente escalado, o resultado é um destrinchamento ingênuo, mas perspicaz quando o ideal em foco são aqueles que estão se adentrando nesse universo. Ponto positivo para a escrita, que mesmo possuindo várias subtramas que inundam o compasso da narrativa e poderiam se perder na areia, despertam curiosidade com excelência; como por exemplo o misterioso núcleo do Paul ser o prometido, ou absolutamente todo o arco que envolve Lady Jessica, interpretada com potência e elegância por Rebecca Ferguson, seja pelos seus figurinos que exaltam poder, ou até mesmo a pouca explorada condicação do propósito da Voz que a personagem possui (que consiste em manipular pessoas ao usar o tom vocal da maneira certa para ativar um impulso). Já para Zendaya, tudo em volta de sua Chani corre através de visões que chegam perto de se concretizar no final, tal clímax não chega devido a óbvia intenção de vender a extensão que vai invadir o filme dois (já confirmado).

Imagem: DUNE (Warner Bros. Media)

Mas ao mesmo tempo que ele acerta, ele estoura a bola, já que talvez seja nessa versão sintetizado que infelizmente Duna – Parte Um pareça minimamente vazio em algumas escolhas, e com o acúmulo de informações que se é transmitido com certa precisão rasa, o que aparenta é que falta um meio ou que algum tipo de parafuso fora mal apertado. É como se o filme quisesse engatar, mas se perde na definição do seu próprio passo. Felizmente é possível deixar isso de lado devido a toda composição técnica que aqui é prezada a nível épico. A trilha de Hans Zimmer, a cinematografia colossal, as roupas, os efeitos e todas os outros artifícios imagéticos que somam uma vivência espetacular dos fatos apresentados.

Contudo, a maioria desses ideiais “negativos” cessam-se por completo quando a tela fica escura e o desejo de presenciar por pelo menos mais 1 hora de conteúdo novo parece apenas algo incontrolável – Villeneuve soube conduzir uma euforia implacável que se explode no peito ao fim do longa, nos fazendo apenas imaginar que uma sequência poderá ser três vezes ainda maior, e de fato deve ser.

Duna: Parte Um está disponível no catálogo da HBO Max.

Nota do autor: 80/100