Se Chappell Roan encontrasse a Kayleigh Rose Amstutz de 10 anos atrás que gravava covers no Youtube e dissesse que lotou a edição brasileira de um dos principais festivais do mundo, provavelmente Kayleigh riria. Mas a carreira de Chappell se constrói principalmente na imprevisibilidade e deslumbramento, que, após a incursão sul-americana e, em especial o Lollapalooza Brasil, já não cabem: ela é uma realidade.
Desde o anúncio do line-up, a presença de Chappell, juntamente com nomes como Sabrina Carpenter, Lorde, Addison Rae e Katseye pareciam bons demais para ser verdade. A ficha só foi caindo nos dias de festival e ao trombar centenas de pessoas com maquiagem carregada e chapéus cor-de-rosa nos metrôs e acessos ao Autódromo de Interlagos. Aliás, a assimilação de toda a magnitude foi um sentimento que pautou todo o sábado de Lollapalooza. Desde os primeiros acordes do festival no sol escaldante do meio-dia, tudo levava a apresentação da headliner.
Por volta das 21h30, quando as luzes do palco Budweiser se apagaram e o monólogo de “Super Graphic Ultra Modern Girl” ecoou, a catarse tomou conta das 85 mil pessoas presentes. Com uma roupa remetendo a uma sereia e pose de vilã da Disney, a ruiva era ao mesmo tempo Ariel e Úrsula, imponente quando cantava e doce quando se direcionava ao público.

Mesmo com somente um álbum e com carreira recente, Chappell se mostrou extremamente madura durante o show, sabendo com quem estava se comunicando e como se comunicar. Durante 1h30 ela teve a audiência na mão, que amplificou a potência de toda a apresentação. Após um início muito acima com “Femininomenon”, “After Midnight” e “Naked in Manhattan”, o show só foi escalando, muito graças ao público e, mesmo com as baladas “Casual”, “Picture You” e o cover de “Barracuda” – contestado durante a turnê –, a temperatura não baixou.
Em uma apresentação recheada de teatralidade, Chappell assume uma persona quando está no palco, quase como uma atriz do método, e parece já ter anos de carreira consolidada. Numa espécie musical de Ruptura, é como se a personalidade de artista tomasse conta do corpo de Kayleigh ao encarar a platéia, algo que se intensifica a medida com que o show corre. Com o microfone em mãos, a sensação que fica é que Chappell incorpora nomes que vão de Madonna a Joan Jett.
Óbvio que a artista se emocionou com a recepção. Um tópico abordado durante o sábado de Lolla, endossado por nomes como Marina e Lewis Capaldi, é que jamais imaginariam sua música chegando tão longe. Chappell compartilha desse sentimento, mas demonstra muito mais eloquência, fato comprovado quando, abdicando de uma tradição da turnê, a cantora, confiando na energia e nos leques da audiência, decidiu não ensinar a coreografia de “HOT TO GO”, e o público fez por onde.
Encerrando com a clássica “Pink Pony Club”, Chappell Roan fez um show grandioso que, apesar da premissa megalomaníaca, não faltou ou sobrou em nada. Nem mesmo a polêmica que dominou o dia teve espaço. Para quem já performou para cerca de 50 pessoas, a artista provou que seu lugar é nas grandes multidões e no panteão do pop moderno.









