Entrevista | Boogarins fala sobre novo momento, próximo disco e expectativas para o Primavera Sound

Não há rótulos que colem no som do Boogarins. A banda de rock goiana já foi comparada aos Mutantes, intitulada de “Tame Impala brasileiro”, associada à Tropicália e até mesmo a Tom Zé. Porém nada disso é suficiente para classificar a música refrescante e potente criada por Fernando “Dinho” Almeida (vocais), Benke Ferraz (guitarra), Ynaiã Benthroldo (bateria) e Raphael Vaz (baixo).

Se você acompanha o grupo desde os primeiros singles, “Doce” e “Lucifernandis” (ambos de 2013), sabe bem do que estou falando. Trazendo elementos do rock psicodélico, do punk e do pop, a banda abusa da imaginação e dos recursos sonoros para produzir um resultado original, em seu jeito próprio de fazer música.

Boogarins (reprodução)

Aclamar a criatividade dos quatro não é exagero: há faixas em que os vocais saíram de áudios do WhatsApp (como em “Lá Vem a Morte, Pt. 1”), ou foram captados pelo celular (como em “Onda Negra”), uma proposta para lá de lo-fi.

Para o Boogarins, ser arrojado já é costume: o primeiro álbum da banda, As Plantas Que Curam (2013), foi gravado em casa, de forma independente, no formato de EP. Segundo Dinho, ele e Benke “gravaram umas músicas sem saber que ia ser disco”. Onze anos e seis álbuns depois, tudo mudou — bom, quase tudo.

A partir daí, o Boogarins decolou — literalmente. Assinaram com a gravadora norte-americana Other Music e lançaram Manual (2015), álbum gravado na Espanha durante uma primeira turnê européia. Na sequência, os quatro fizeram as malas rumo à Austin, no Texas. Lá, entre os compromissos dos shows, gravaram os discos “Lá Vem a Morte” (2017) e “Sombrou Dúvida”, (2019).

Durante a pandemia, com o hiato das apresentações, o grupo goiano decidiu presentear seus fãs com “Manchaca I” e “Manchaca II”, dois álbuns repletos de músicas concebidas durante as temporadas de gravação nos Estados Unidos.

Agora, o Boogarins está pronto para explorar novas possibilidades. Curiosos sobre esse momento, nós do escutai convidamos Dinho e Raphael para uma conversa sobre o atual cenário da banda, os novos trabalhos e a expectativa para a apresentação na primeira edição do Primavera Sound São Paulo que acontece em novembro deste ano.

Novo disco dos Boogarins à vista

Dinho me conta que as experimentações para o próximo álbum já começaram. Em julho, o grupo se reuniu em casa e fez uma primeira gravação, com a colaboração de Alejandra Luciani, engenheira de som e parceira de Raphael, com quem forma a dupla Carabobina.

Para este novo disco, a receita é um pouco diferente. Após o turbilhão dos primeiros trabalhos e das grandes turnês, os quatro integrantes estão vivendo um novo momento, e isso refletirá nas músicas que estão por vir.

Dinho explica:

“É ruim falar [sobre o novo álbum] porque ainda está nessa coisa da construção… Mas isso é uma coisa para te falar! No ano passado fizemos um registro de pré-produção das músicas, então acho que, pela primeira vez, estamos fazendo a coisa com calma — algo que a gente meio que nunca fez. O ‘As Plantas Que Curam’ foi aquele negócio: era o primeiro disco, eu e o Benke gravamos umas músicas sem nem sabermos que ia ser disco. Depois disso, todos os outros álbuns são registros da gente na estrada, desenvolvendo as músicas na estrada e gravando”.

Agora em casa, com mais tempo e cercados pela família, Dinho avalia que todo o processo tem um novo ritmo desde antes da gravação: “Esse trabalho novo tem essa coisa de ser cozinhado por mais tempo, e não cozinhado na ideia do pós. A gente tá construindo, fazendo a música acontecer.”

E acrescenta: “Eu to com filho, cada um tem casa. Antigamente era uma doideira, a casa era a estrada. Isso sem dúvida reflete no jeito que a gente faz a música, no jeito que a gente toca, no que tá na sua cabeça enquanto a gente tá tocando, no processo todo.”

Brinco perguntando se ter uma cama faz diferença no processo, e Dinho é certeiro na resposta: “Oh, exatamente! [Risos] Imagine… Dorme na cama aqui, com filho, grava, volta pro filho… Eu não sei se isso vai estar nas músicas, se isso vai estar na onda da coisa toda, mas sei que vai ser a mesma onda boa que a gente sempre entrega, só que nesse lugar mais calmo.”

Boogarins (reprodução)

Boogarins da composição à pós-produção

Mas as mudanças não estão apenas no momento de vida do Boogarins. Nessa nova receita para o disco, que acontece no auge da sintonia entre os integrantes do grupo, a colaboração de cada um no processo de composição também tomou novos caminhos.

“O que dá para ver, baseado nessa última sessão que a gente fez no meio de julho, é que o espaço das composições de cada um está mais claro. Antes, alguém trazia uma ideia e todo mundo assinava a ideia, porque rolou de todo mundo. Agora, o Raphael trouxe umas canções, o Benke trouxe umas canções, o Ynaiã trouxe uma canção… Essa calma e essa coisa da gente ter ficado longe um do outro [por conta da pandemia] trouxe o lugar de cada um querer ouvir o outro. Então acho que a gente está se escutando mais e o negócio fica mais apuradinho, no sentido de não ser tão registro do momento.”

Investigo um pouco mais sobre a produção do novo disco; afinal, se os papéis de cada um estão mais claros na composição, como será na produção? Pergunto se Benke, que consolidou seu papel como produtor musical nos últimos anos, será o responsável pelo registro desse novo projeto. Porém, Dinho já me pede calma: “Olha, tá cedo pra saber.”

Ele explica: “Fizemos uma primeira gravação para conseguirmos chamar outras pessoas que não a gente para ajudar na produção, seja na pós ou na pré. Esse, inclusive, é mais um ponto diferente dos outros trabalhos. Sempre fizemos tudo muito fechadinhos. Mesmo quando estávamos fora, nos Estados Unidos, tínhamos o Gordon (Zacharias, manager e produtor) dando uns pitacos, depois o Benke ficava martelando. Ficamos nesse ciclo assim, entre a gente.”

“Nesse disco, queremos dar uma abertura um pouquinho maior para determinados pontos nas canções que a gente identificar que pedem isso. Por mais que a gente esteja fazendo tudo com mais calma, ainda vamos nos abrindo para qualquer situação que possa acontecer para conseguirmos finalizar essas músicas. E, se Deus quiser, até o final do ano, vai ter uma provinha aí do que a gente tá falando.”

Mas, mesmo com tantas mudanças e o empenho para testar novos processos, a energia e o entusiasmo pela música que tornam o Boogarins o que ele é estão mais presentes do que nunca.

Boogarins (reprodução)

“Tentamos fazer coisas diferentes, mas tem coisas que a nossa relação não deixa ser muito diferente. Há uma dinâmica nossa que eu acho que é o diferencial da banda, que é o que nos faz ser muito “banda”. Dizemos ‘Ah, vamos nos reunir antes para definir umas paradas’. Aí acontecem as reuniões no Zoom e você vê que estão todos guardando as coisas para hora de se encontrar e tocar. No fim, todo mundo só quer mesmo é se ver e tocar de perto. Tem essa coisa de amizade e relação que é muito o que é a banda. Isso vai estar em todos [os trabalhos] e isso faz várias coisas serem parecidas [entre um disco e outro]”.

A veia dinâmica é outra marca registrada do grupo. Por diversas vezes, o Boogarins descreveu o processo criativo como um “fluxo de consciência”, um trabalho de sincronizar letra e melodia que nasce da interação entre os quatro. Por isso, durante o período pandêmico, em que os shows foram interrompidos e os encontros eram desaconselhados, a banda buscou outras formas de alimentar a criatividade.

Raphael reflete sobre esse momento: “A pandemia foi uma doideira. Até então, a gente nunca tinha parado um momento. Não houve um mês que fosse sem shows desde que começamos, sabe? A gente sempre foi muito instigado a tocar junto, fazer show, deixar a coisa solta. Pegar uma canção e explodir os limites dela, fazer outra coisa, no sentimento bom de estar junto. Acho que a pandemia foi até um elemento para gente fazer o contrário: não tocar e realmente se imaginar enquanto banda. [Pensar] Se a gente ainda existia, se tinha fogo, se era bom.”

“Até hoje, quando eu faço show de vez em quando, acho esquisito que ficamos dois anos parados, todo mundo, o planeta todo… Mas para a gente serviu muito.”

Parcerias e colaborações

As trocas não vêm acontecendo apenas entre os quatro. O Boogarins tem um portfólio de colaborações que cresce a cada dia, em que figuram nomes como Céu, Ava Rocha, Negro Leo de Bonde, Giovani Cidreira, Pluma, Betina, Tagore e vários outros.

Durante a pandemia, os feats se intensificaram. Com a possibilidade das trocas virtuais, músicos e compositores encontraram uma forma de driblar os percalços dos últimos dois anos. Dinho encara esse como um “momento 2.0 das parcerias”: “Em teoria, as coisas são mais fáceis agora, e queremos nos utilizar disso para próximos trabalhos nossos.”

Para escolher as parcerias, a regra é estimular os trânsitos e o pensar sobre música: “Somos muito abertos. Sempre tentamos trocar ideia com quem manda mensagem. Se não participamos da música, ao menos trocamos ideia de som. Acho que a estratégia [para escolher com quem colaborar] é continuar fazendo com que esse pensar sobre a música e sobre o nosso jeito de fazer música, que instiga as pessoas, continue existindo.”

Boogarins (reprodução)

Para Dinho, pensar sobre música é parte da essência da banda. “Eu acho que o Boogarins tem esse lugar de ‘música para quem faz música.’ De gerar essa curiosidade em quem faz o trem também, pelos caminhos que a gente acaba tomando. Uma das coisas mais legais de trabalhar com música é que os outros te chamam para somar no deles. Essa lógica é muito boa.”

Ele compartilha comigo o som que tem escutado recentemente: “Tem um disco que o Benke produziu durante a pandemia que é o [Crise dos 20] do Vieira, que é muito emocionante. Ele participou dos nossos últimos shows em São Paulo e tem uma voz muito potente, muito bonita. E aquela produção marotinha do Benke deixa as coisas mais interessantes e mais instigantes ainda. Também recomendo ouvir Pink Opala, que acabou de lançar uma live linda [o Sessões Alta Floresta]. É novidade, lá de Goiás. Também tem o Crizin da Z.O. – esse é o mais pesado que tá tendo. Lá de Curitiba, menino bom, tocou na última Mamba [Negra, festa de música eletrônica]. Som forte. Ele já é estrela.”

Em meio a tantos nomes, imagino que você esteja se perguntando sobre novas colaborações, certo? Bom, eu também: “O que mais tem aí é ‘feat’ na gaveta, mas não vou te dizer nome [risos]. O que mais tem é música que fizemos com os outros e que estão no portão de casa,  já tão virando a chave, daí a gente as chama para voltar, porque queremos mexer, botar uma blusinha de frio!”

Próxima parada: Primavera Sound São Paulo 2022!

Todas essas etapas de criação não resumem a atuação da banda. Pelo contrário: isso é só o começo. A concepção e produção das músicas é parte essencial do trabalho, mas o ciclo não estaria  completo sem os palcos. Desde 2013, o Boogarins tem uma agenda repleta de apresentações ao vivo e já chegou a fazer mais de 100 shows em um ano, passando por turnês internacionais na Europa e América do Norte.

O grupo também já marcou presença em alguns dos principais festivais de música do mundo, como o Lollapalooza Brasil, Rock in Rio Lisboa e Coachella. Em frente à plateia, a banda coloca em prática toda a expressividade do rock – ensaiar, criar, reinventar e testar o termômetro do público, tudo em cima do palco.

Para Raphael, inclusive, essa é a melhor parte da função de ser músico: “Talvez isso seja o mais legal, o mais doido. Por mais que a gente curta demais gravar, compor, arranjar, ficar pensando na música durante um ano, essas coisas acontecem em um outro tempo. Porque uma vez que está registrada e lançada, tem música que a gente toca há 10 anos agora, e é sempre um processo de fazer aqui ainda soar novo e refrescante – para gente e para as pessoas, de alguma forma. É um exercício muito massa e, para a gente, está ligado diretamente à existência da banda e ao que fazemos. Não acho que a gente algum dia seria uma banda só de gravação. Acabamos levando tudo que acontece nos palcos para outros processos também.”

Neste segundo semestre, os quatro se preparam para mais uma presença marcante nos grandes palcos – dessa vez, em território nacional. Pela primeira vez, o Primavera Sound, um dos principais festivais musicais da Europa, vai aterrizar  nas Américas. O Boogarins é presença confirmada na edição de São Paulo, que acontecerá entre os dias 31 de outubro e 6 de novembro, e na de Buenos Aires, que se desenrola em sequência.

Essa não será a estreia do grupo no festival: eles também figuraram no lineup do Primavera Sound de 2014, com um show psicodélico e marcante no Parc de la Ciutadella, em Barcelona. A presença da banda se encaixou na proposta do evento: revelar as próximas tendências da música e proporcionar uma plataforma improvável para novos artistas.

Para essa edição, bem ali na minha frente, o grupo começa a pensar nos elementos que tornarão este mais um show marcante na carreira. Sentiu um gostinho de música nova por aí?

“Se o Benke estivesse aqui, ela já iria falar que vamos tocar uma das músicas novas. De repente rola, essa ideia é boa. Tem tudo para acontecer. Acho que a gente, ultimamente, tem feito mais repertório. O negócio está mudado, até para isso [decidir como serão os shows] está rolando mais calma agora. Então, para o Primavera, podemos tocar uma daquelas que tem os vídeos bonitos de nós tocando em Barcelona… Já pensou, Raphael? Tocar ‘Refazendo’, umas músicas antigas boas, depois já emenda com uma nova… Pode soltar isso aí. O show do Primavera do Boogarins vai ter música inédita. A Ana que pediu.”

Raphael embarca na ideia: “Realmente [o show no Primavera] vai ser um corte para outro momento. Todos os shows que fizemos esse ano e ano passado eram muito recheados de Manchaca – os discos pandêmicos – e umas novas versões dessas músicas. É massa que, finalmente, estamos virando essa chave de pandemia, de lançar tudo que temos na gaveta, e estamos pensando em fazer coisas novas. E, como esse show é no final do ano, tem tudo para ser realmente uma outra parada – e é o que será, pode esperar.”

Boogarins (reprodução)

A atenção especial aos palcos vanguardistas do Primavera Sound não é para menos: nos dias 05 e 06 de novembro, o evento no Distrito Anhembi reunirá nomes de peso da música nacional e internacional, como Björk, Travis Scott, Beach House, Arctic Monkeys, Lorde e Interpol. Além disso, entre os dias 31 de outubro e 4 de novembro, mais de 30 artistas se apresentarão em shows paralelos espalhados por São Paulo — como é o caso do Boogarins, que marcará presença no Cine Joia.

Como espectador, Raphael relembra a edição de 2014: “De repente estávamos nesse line up foda, aquele ano foi magnífico. Logo depois do nosso show já tinha Connan Mockasin – foi quando a gente o conheceu de fato e chapou no som. Aqueles três dias ficaram na memória. A juventude que a gente tinha no nosso corpo e a vontade de bater perna em festival e assistir aos shows…”

Dessa vez, Dinho quer conferir o show do grupo britânico Beak — e analisa que o evento terá um significado maior que as apresentações em si: “O jogo de emoções de um festival, esse é o lance. Que esse final do ano encerre o que já foi pandemia, e que agora a gente possa voltar a viver os grandes eventos. Eu estou com muita saudade desse espírito. Quero ver o povo curtindo sem preocupação, sem ver um show sendo cancelado porque tal artista estava com Covid. Que essa lógica passe e que impere a lógica da celebração.”

E Dinho garante: quem está aguardando o Boogarins no Primavera pode se preparar para um encontro marcante. “Esse show do Primavera será especial. Todo mundo que viu nossos vídeos da praça no Primavera Barcelona tem o sentimento de que o Boogarins no Primavera é especial, e nós vamos provar isso. É a prova real de que aqueles vídeos lá não são nem a metade da experiência de verdade.”

Por Ana Sampaio

Virginiana incorrigível, advogada não-praticante, apaixonada por música e fotografia.