Entrevista | De volta da turnê européia, Urias fala sobre novo EP e Primavera Sound

Tarde de quarta-feira, temos quinze minutos com um dos fenômenos da música brasileira. O que mais queremos saber? Urias é uma figura importante e expoente, tem alcançado feitos inéditos e especiais, lançou o EP “HER MIND” há poucos meses, chegou de uma turnê na Europa e se prepara para shows nacionais, incluindo no Primavera Sound, um dos maiores festivais do mundo e que tem data marcada para novembro no Brasil.

Preferimos começar com o lançamento mais recente e perguntei sobre o EP. Conversamos sobre a sonoridade, influências e os quatro idiomas cantados nas faixas: português, inglês, espanhol e francês.

“Com esse EP eu quis levar meu trabalho para um lado mais internacional, quis chamar atenção de outras pessoas, por isso canto em outras línguas. Tem sido muito incrível pra mim, a recepção, a percepção e a interpretação das pessoas (…). E (com esse EP) vem a descoberta de muitas possibilidades: de que eu posso fazer, posso explorar, onde eu posso alcançar agora, sabe?”

E já que o assunto é a recepção das pessoas e o desejo de explorar da artista, pergunto sobre a turnê na Europa, que aconteceu em junho como abertura dos shows de Pabllo Vittar.

“A gente saiu em turnê agora em junho e foi incrível. A recepção das pessoas lá fora, como elas acolheram a nossa música… Principalmente eu que tenho um alcance menor e nunca tinha ido, me surpreendi muito com as pessoas sabendo cantar as minhas músicas, querendo estar ali pra me ver também… Foi um sentimento de muita realização, eu tava junto com pessoas que são minha família, então foi inesquecível, sempre vou lembrar desses momentos, dos perrengues às coisas boas.”

E já que a Europa rendeu tantos momentos memoráveis e lembranças boas, preciso perguntar da diferença na receptividade do público. A Europa é mais aberta, calorosa e receptiva, ou o Brasil ainda tem o calor de casa?

“Brasil é Brasil, não tem comparação, as pessoas daqui quando se trata de gostar de música… A gente vai atrás, se endivida para comprar o ingresso, a gente tá lá na frente gritando e sacudindo a grade, então não tem nem comparação. Mas as pessoas lá quase chegaram perto, principalmente em Paris… Lá o povo parecia que ia derrubar o lugar, foi muito emocionante.”

Pouco mais tarde pergunto sobre como Urias se sente sendo a primeira mulher trans a colocar duas músicas de um mesmo álbum no top 15 do iTunes Brasil. Um feito de impressionar, mas a artista relata sentimentos conflitantes.

“De um lado é muito bom, poder colaborar com a minha comunidade, as pessoas do meu recorte e tentar melhorar a nossa caminhada… Mas por outro lado (…) me dá um coceirinha saber que sou a primeira, achei que já teria passado esse momento. Fico feliz de ter entrado por esse caminho que muita gente fez acontecer antes, mas ainda estamos começando…”

Mesmo assim, Urias tem um material de trabalho já robusto, e voltamos a falar sobre seus projetos. Pergunto as inspirações e referências por trás do EP, e a resposta vem na ponta da língua.

Urias por João Arraes (reprodução/créidtos)

“O que mais me inspirou nesse trabalho (HER MIND) foi falar da minha mente, e não só sobre o meu corpo, que eu já vinha falando todo esse tempo. Agora eu quis chamar atenção para outros aspectos da minha existência, então esses 3 primeiros EPs (HER MIND e os próximos que formarão o álbum) significam muito isso.”

E as inspirações e parcerias? Podemos esperar feats e colaborações nos próximos trabalhos?

“Sim estou correndo atrás de feats aí, quem sabe até internacionais? Mas não posso falar muito ainda… Vai que eu levo um não da pessoa? Vou ficar passando vergonha (risos). Mas vou dividir as três partes (EPs) em sonoridades diferentes, então, talvez a próxima parte não se pareça muito com a primeira… Mas também se assemelham em alguns momentos… Sou aquelas que respondem mas não respondem (risos).”

Nós rimos e eu menciono “Blosson“, última música do EP, que apresenta uma sonoridade mais “leve” em comparação com as outras 3 faixas do trabalho, que apresentam um EDM mais pesado. Comento sobre a leveza da faixa, e pergunto se é um gostinho do direcionamento sonoro que o segundo EP vai trazer.

“Não é necessariamente um gancho, não é bem pra essa direção que eu vou… Mas com certeza vai ter uma mudança na sonoridade. É que Blossom eu tinha que lançar, ela é muito especial… Quando o Mafalda (produtor) me mandou a base, foi uma das músicas que eu mais demorei a escrever. Chamei o Number Teddie e a Alice Caymmi pra escreverem comigo, eu tava muito insegura e deu muito certo.”

E com tanto futuro pela frente, preciso saber de mais uma parte do trabalho de Urias, que chama atenção e arranca elogios: seus visuais. Como funciona para ela o processo visual, o quanto da participação ativa dela há nos clipes, e o que podemos esperar para o imagético dos próximos trabalhos.

“Eu sempre penso no projeto inteiro como uma história que eu quero contar, como foi com o (álbum anterior) Fúria. No caso do Fúria, trabalhamos o preto e branco para abrir à interpretação, para as pessoas verem e sentir como elas identificavam, então eu não quis direcionar cor, teve toda essa coisa do mistério. Nesse eu decidi vir o mais colorida possível, eu queria que as cores dos visuais e como a gente as colocou ali lembrassem coisas de cérebro, como uma tomografia, porque eu tô falando da minha mente, então eu parti desse princípio para a primeira parte. Nas outras partes isso segue de base, mas vou trabalhar com artistas da arte visual que vão complementar o trabalho, quero abrir meus horizontes artísticos. Daí fomos escolher cores, pensei no contraste e que não fossem óbvios, e comecei com o amarelo e azul – que são cores primárias também. Tem dado certo, gostei bastante do resultado das coisas.”

Falamos de Europa, álbum e EP, representação e visuais, mas… E os shows no Brasil? Como está a expectativa de se apresentar no Primavera Sound, e o que os fãs podem esperar desse encontro?

Urias por João Arraes (reprodução/créidtos)

“Olha, eu quero muito (no Primavera Sound) dar um grande show. É um festival que eu sempre quis ir, é muito bem falado lá fora e tá aqui pela primeira vez, então quero preparar grandes momentos para o festival. Já estamos preparando, na verdade. A diretora do show, Jessie Miller, já tá com todo gás pra fazer, ela tá super empolgada (risos), então vocês podem esperar… Muita coisa, coreografia, looks, muita entrega, vai ter muita muita muita entrega, tô me preparando como nunca. Acho que é o show que eu tô mais ansiosa pra fazer.”

Agradeço pelo nosso papo, pelo tempo e disponibilidade da Urias, mas a gentileza que me encantou permanece comigo. Despeço da artista em nome do escutai, desejo ótimos ensaios e muito sucesso nos projetos com a certeza de querer acompanhar de perto cada um dos próximos passos, como quem torce pelos sonhos de uma amiga que sinto que acabei de fazer.

Urias desperta esse senso de encantamento, e sei que é só questão de tempo até o mundo inteiro se curvar para a mente sagaz e delicada, e igualmente ensual e forte da artista.

Por Augusto Alvarenga

escrevendo, comunicando, filmando, criando e vivendo.