Entrevista | Rizzih fala sobre “Poema Suspenso” e sua conexão com a arte

Com o recém segundo álbum lançado, Rizzih conversou com o escutai sobre sua conexão com a arte e como ela o inspirou até aqui

Resgatar emoções vividas durante a vida e transformar em arte nunca é uma tarefa fácil, ainda mais quando essas emoções envolvem memórias tão fortes. Rizzih — cantor, compositor e poeta catarinense — transforma isso com tamanha delicadeza que nos faz cair na ilusão de que é fácil. 

Rizzih lançou “Celeste”, seu álbum expressivo de 2016 e deu um passo gigante na carreira. Álbum esse que nos presenteou com “Silabário”, facilmente uma das canções que marcaram sua carreira — e uma das favoritas dos fãs — já logo no primeiro projeto autoral, alcançando organicamente a quarta posição no chart das músicas mais virais do Brasil no Spotify. 

Colhendo os frutos durante os seis anos que se passaram, incluindo o lançamento de sua banda Tazo e o primeiro álbum do projeto, uma turnê de sucesso com a amada personagem Déte Pexera, um EP repleto de nostalgia dos anos 80, o “FitaK7”, e até o lançamento de seu primeiro livro de poesias, Rizzih retorna à cena musical com seu segundo álbum solo autoral, “Poema Suspenso” — “segundo” na linha categórica, mas “terceiro” de coração, segundo o próprio artista.

Crédito: Rizzih / Casa Frisson (reprodução)

Para ilustrar o novo universo musical que Rizzih criou e quer nos apresentar com o “Poema Suspenso”, convidamos o artista para conversar sobre o projeto e detalhar toda a sua concepção, do início ao fim, pensada para a obra.

“Quantos poemas estão suspensos nas coisas que dizemos todos os dias? O que pode a palavra?”. Foi a partir dessa inquietação que Rizzih começou a pensar no álbum. Seus planos para um novo trabalho começaram logo em 2019 e de cara previu que tudo seria totalmente diferente do que havia feito até o momento. Com a pandemia isolando o mundo, todos presos em casa, a alternativa foi parar e olhar para dentro de si mesmo. “Todo mundo procurou uma bóia de salvação pra conseguir passar pela pandemia preservando sua saúde mental, a minha foi a literatura. Aproveitei o tempo de isolamento lendo e escrevendo loucamente. Foi assim que nasceu meu primeiro livro lançado, ‘Dialeto de Parede’.” explica Rizzih sobre o início de composição e reflexão sobre temáticas, momentos e memórias, e como tudo isso se conecta nessa nova fase de sua vida. “Não tem como não falar do meu livro ao falar desse novo álbum porque penso que o disco seja uma extensão da minha poética. O que me salvou e me manteve são e esperançoso na pandemia foi a poesia, literalmente.”

Crédito: Rizzih / Casa Frisson (reprodução)

Lançado em 2021, o livro de poesias “Dialeto de Parede” serve, a grosso modo, como uma introdução ao novo álbum (e também de sua carreira). “O meu livro reúne meus poemas num enredo que narra a morte do velho ‘eu’, a gestação de um novo ser e encerra com o renascimento. O álbum ‘Poema Suspenso’ sou eu me apresentando ao mundo renascido. Embora minha essência seja a mesma, sou um homem completamente diferente depois da pandemia”, explica.

“Pensando agora, enquanto respondo essa entrevista, acho que esse álbum também é um agradecimento, sabe?”, refletiu. “Um agradecimento à arte que é a minha salvação. Um agradecimento aos meus fãs que me dão força e coragem pra continuar motivado. Uma celebração por termos chegado até aqui. Poema Suspenso é um manifesto poético cantado, uma ode à afirmação da vida.”

A busca pelo novo se mantém forte em “Poema Suspenso”. Toda a identidade sonora de Rizzih continua enraizada nesse novo projeto — categorizada como poesia pop. Mas o álbum é bastante inaugural em muitas coisas, começando pelo fato de ter visuais, um para cada canção. “Eu queria trazer o público pra dentro do meu universo, isso te digo categoricamente. Dá pra acreditar que dos meus dois últimos trabalhos, só lancei um videoclipe?” indagou brincando. “Isso se dá porque passei os últimos sete anos em turnê no teatro [com a Déte Pexera], o que demandava minha total dedicação. Então eu gravava o álbum, lançava e pronto. Agora não”, explicou. Rizzih procurou priorizar em “Poema Suspenso” tudo que sempre quis fazer, como fotografias, visuais, e outras surpresas. “Priorizei esse novo projeto com tudo o que sempre quis fazer em uma era: vídeos, fotos e outras coisas que ainda virão.”

“Poema Suspenso” também se diferencia na narrativa contextual. As músicas de amor não são apenas músicas de amor romântico, e as que são, lançam um olhar muito mais maduro do que as coisas que Rizzih escrevia em momentos anteriores. “É também um álbum mais subversivo, que permeia minha sexualidade, minha relação com religião, filosofia e posicionamento ideológico como artista LGBTQIA+.” 

Falando sobre as inspirações que o ajudaram a criar “Poema Suspenso”, Rizzih relata que foram pouquíssimas intervenções externas, e que priorizou manter sua identidade sonora, misturando sons orgânicos com sintetizadores para criar algo novo. “Nesse álbum o processo foi interessante porque usei pouquíssimas referências externas, duas ou três pra falar a verdade. Lembro de levar pro meu produtor Christine and the Queens, Lorde e Adriana Calcanhotto pra uma ou outra faixa, mas no geral, a inspiração foi muito mais guiada por minhas próprias ideias e do Zé, que produziu o álbum. Eu gravava um ‘mapa’ pra cada guia, narrando o que imaginei em cada parte da música e ele criava a partir disso. Foi um processo de um ano, muito prazeroso e maturado.”

Toda a estrutura do álbum foi montada com base em suas principais características musicais. “Tem violão, guitarra e até uma orquestra gravada organicamente, mas sempre com a presença dos sintetizadores envolvendo tudo. Eu sou isso, sabe? É a mistura do som ‘eu compondo no meu quarto sozinho’ com o que eu imagino pra música enquanto tô compondo”, afirmou. “Meus fãs vivem pedindo um projeto acústico, mas não consigo não ter os sintetizadores bem presentes, eu amo.”

Crédito: Rizzih / Casa Frisson (reprodução)

“Poema Suspenso” é visual e isso ficou claro desde o início. Por todo seu background como artista cênico, Rizzih deixou visível que um dos principais pilares dessa era seriam os visuais, como a capa do álbum e os tipos de referências utilizadas nela. “Como eu também sou ator e vivo majoritariamente de teatro, eu quis trazer essa plástica cênica, lúdica. Começando pela capa, que eu imaginei daquele jeito desde o começo.”

Viviane Mosé foi uma das peças chave dessa criação, segundo o artista, que citou o trecho “Santo é um espírito capaz de operar milagres sobre si mesmo” de um poema que mudou sua vida. “Pensei nessa imagem de santificar-se a si mesmo sendo um homem gay. No colo eu seguro três cabeças, como quem renasce mas carrega consigo os ‘eus’ do passado, responsáveis pela memória.”

“Nesse trabalho, quem assina a direção e produção artística é a Casa Frisson, dois grandes amigos meus que são artistas formidáveis e realizam um trabalho lindo em dar vida às minhas ideias e colaborar com novas ideias também. ‘O Auto da Compadecida’ foi uma das nossas referências pra capa e no clipe de ‘Zíper’, por exemplo, quisemos fazer uma homenagem misturando o poeta Glauco Mattoso, famoso por sua podolatria, com o universo de Twin Peaks do David Lynch, que eu amo e também foi minha obsessão nos últimos anos pela paixão em comum pelo mundo dos sonhos” explica Rizzih sobres suas principais referências visuais. “Nas artes plásticas eu sempre fui um apaixonado discípulo do surrealismo e do dadaísmo, então acho que isso se reflete também nos visuais do álbum, mesmo que sutilmente.”

Rico em saudosismo, “Poema Suspenso” tem participação de sua irmã Júlia, agora estreando sob o nome artístico de Lizzih. “Eu mesmo sugeri [esse nome] porque queria que fosse bem cafona anos 90: Rizzih e Lizzih. Ela ficou conhecida na internet no auge do Youtube como Julia Jubz, mas como vai lançar músicas em breve, entendemos que era o momento de um novo nome.” “Tanta”, faixa do álbum “Celeste” em que ela canta com Rizzih, é uma das mais queridas e ouvidas do disco. “Não podia faltar ela nesse álbum. Na verdade acho que ela sempre vai estar em tudo que eu fizer.”

Que Rizzih é um artista colaborativo, não há contra-argumentos. Prova disso é sua relação de amizade e profissional com Violeta, parte de longa data em sua jornada como artista catarinense, e que em “Poema Suspenso” participa da potente faixa de abertura “Amarelo da Goiaba / Pensamento Asa / Amor Fati”. Já em “Órbita” temos os vocais da talentosa Thalita Evangelista, artista baiana que Rizzih convidou para participar do projeto depois de ver um vídeo dela no Instagram, adicionando seus vocais em cima de um vídeo que o artista postou cantando a música. “Esse álbum teria também a participação da minha amiga Ana Vilela e da Fantine do Rouge, que aceitou meu convite e eu pirei, mas acabei compondo o álbum novo da Ana inteiro com ela e senti que seria melhor refazer o convite pras meninas em outro momento porque percebi que o álbum estava redondo. Quem sabe na versão estendida?” acrescenta Rizzih deixando o tom de suspense no ar. 

“Poema Suspenso” já está disponível em todas as plataformas de música e conta com visuais no canal do Youtube oficial do artista.

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