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Crítica | O significado e o apreço pelo vazio são protagonistas em Lamb

Em uma trama que conta com um fofo híbrido metade cordeiro metade humana, longa da A24 admira o vazio, mas muitas vezes parece vazio demais

Os primeiros minutos de “Lamb“, folclore islandês da A24, são regados de muitas respostas que lá no final pareciam estar conosco desde sempre. Basicamente a união em torno de começo e fim perpetua o conceito de “quem é o verdadeiro monstro?“, e ao mesmo tempo o de “somos todos monstros?“. Estranho? Sim, mas dentro do leque que a produtora está acostumada a abrir, isso é quase um preceito básico. Aqui, Infelizmente, essa casualidade que temos nas obras da empresa aparece no longa de Valdimar Jóhannsson de modo pequena e desvanecida, diferente de toda a concepção de vida que o enredo acomete.

Imagens: Lamb/A24

Tendo ganhado a categoria de horror, a quase fábula passa distante desse rótulo e mostra na história que não espanta muito, um casal enlutado que mora em um silencioso e desanuviado vale da Islândia. Eles vivem do que produzem e possuem a criação de cordeiros como atividade que mais movimenta o dia. Parte desse cotidiano muda com a chegada repentina e sem explicações de Ada, uma criança metade cordeiro metade humana.

Toda a monotonia das 24 horas dos dois transforma-se em algo cordialmente feliz, e tal representação toma conta do ambiente com um convencionalismo discreto que tenta exprimir a trama para o telespectador através de um imagético que preza nos muitos quadros um ideal de grandeza. Tal apresentação de imenso se dá por frames mostrando a natureza sóbria e devastadoramente melancólica do lugar. Seja pela paleta de tons mais rochosos, sem brilho em praticamente todo o seu inteiro, ou por uma câmera que decide focar mais em animais do que humanos.

É inegável que todo cineasta usa do artificio de contar com imagens uma gama de sentimentos, o diretor Jóhannsson obviamente vai por essa curva em toda a duração de “Lamb“, e no primeiro momento (que mostra algo se aproximando e traz vários cavalos correndo com um certo medo no olhar), ele quer incendiar a ideia de que algo “natural” provocado por nós, humanos, está vindo. O que deveríamos em tese fazer? Entender que somos os responsáveis por tais consequências e devidamente seguir o rumo natural do que está por vir – ação e reação. O que vamos fazer? Tentar tomar para nós.

O breve gosto de equilíbrio que se faz aqui (María e Ingvar acabaram de perder sua filha e estão compreendendo por convicções próprias como deve e o que é a dor do luto) é quebrado pelo azedo que qualquer ser humano possui dentro de si: o de roubar o que não é seu para tornar dores corpulentas menos pulsantes. A vinda de Ada representa isso muito bem de um jeito bem original alá o que a produtora A24 faz, ela é um tipo de milagre, daqueles que parece ter caído nas mãos erradas na hora certa.

Se por um lado Jóhannsson tinge os panos com ardor usando personagens, cenas, locais e acontecimentos que muito representam o que é ser e sentir a dor do vazio (a María insana de Noomi Rapace promove com efervescência tal sentimento), por outro, ele argumenta que de muitas maneiras corroboramos para a destruição dos elementos mais simples e vitais (a natureza, os animais, novas chances) pelo apreço em nos fazermos sentirmo-nos bem; tais pontos acabam sendo desembaraçados muito plausivamente. Acaba que em seu propósito final, “Lamb” enche a boca com uma quebra de expectativa um pouco menos forte (e ambiciosa).

Imagens: Lamb/A24 /MUBI

É possível considerar sim todos os debates que vemos em tela, mas eles se dissipam muito rápido, parecendo em muitas oportunidades, fracos. Resolução essa devidamente triste, mas também irremediável, já que desde o momento zero, o que está por vir no drama folclórico parecer ser o mais interessante em uma história que poderia seguir caminhos agudos e simbólicos. O que há no miolo parece as vezes um pouco arisco, e até chato em certas ocasiões, se houvesse um menor medo quanto ao risco, tudo seria ainda mais denso. Ainda assim, é possível apreciar toda a beleza que o filme põe no coração de algo que devemos prezar e tentar entender: o vazio.

“Lamb” está disponível na MUBI.

Nota do autor: 55/100

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