[M]EIO, coletivo underground que nasceu em São Paulo, aposta na construção de identidade de uma pista marcada pela presença

Castrø, fundador e curador do [M]EIO, defende a ideia de construção de identidade como parte fundamental para se preservar a pista como experiência coletiva e não como mais um produto de exposição de status

A cena Techno brasileira e paulistana enquanto movimento de música underground e ligado historicamente a certos grupos marginalizados socialmente, como a comunidade LGBTQIAPN+, tem enfrentado diversos desafios entre se manter ativa enquanto festa independente que tem sua identidade própria e não perder relevância na cena diante de cada vez mais selos, coletivos e empresas internacionais que chegam no nosso cenário com grandes aportes de dinheiro e infraestrutura, sufocando uma cena que sobrevive com poucos recursos e apoios de políticas públicas. 

Grandes festas, eventos e festivais, como agora a anunciada edição no Brasil Whole, Time Warp, Tomorrowland, AfterLife , X, UNREAL, entre vários outros, disputam engajamento, espaços, Djs, que acabam impactando em diversos setores do ecossistema, inclusive sufocando a margem de preço do ingresso final para o público, pois de acordo com Castrø, fundador e curador do [M]EIO, coletivos independentes precisam gastar entre 12 a 15%  do custo total de um evento apenas em marketing. Quando empresas grandes vêm para cá é difícil competir em público e engajamento, pois para descer no ring com elas é necessário ter muito dinheiro.

Nessa conta, outro fator é determinante, a principal fonte de renda das festas mudou. Antes o bar em vez da bilheteria, agora o contrário. Um estudo da Clubcommssion Berlin é categórico, cerca de 60% das receitas dos bares em Berlim, vinha de bebidas e alimentos, enquanto os ingressos representava 21%, hoje a bilheteria representa cerca de 59% e o consumo caiu para 20%, o que acaba inflacionando o preço dos ingressos para além do valor real da inflação agregada na entrada de um evento. 

Quando olhamos para São Paulo e o Brasil não é muito diferente, uma pesquisa lançada recentemente pela Ipsos-Ipec para o Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (CISA) chegou na seguinte conclusão: em 2025, 64% dos brasileiros declararam não consumir álcool, contra 55% em 2023. Entre os mais jovens, o salto é ainda mais expressivo, os índices subiram de 46% para 64% na faixa de 18 a 24 anos e de 47% para 61% entre adultos de 25 a 34 anos e que para além disso, os que consomem a quantidade também mudou, agora a maioria consome apenas uma ou duas doses por ocasião. 

Os dados são bastante alarmantes para quem luta para manter uma faixa de preço acessível. Quando olhamos para a comunidade e vemos suas crescentes reclamações acerca de preços abusivos, taxas de conveniência, problemas com cambistas digitais e físicos — que inclusive levaram o governo Lula, junto à presença de diversos fandoms, neste 31/08, a rever a política de ingressos para shows e eventos no Brasil —, valores de couvert artístico, entre outras, sem falar sobre os valores de deslocamento para uma festa, o resultado não é outro se não: o rolê custa caro.

Em entrevista com a Escutai Castrø mencionou ainda uma outra coisa que tem impactado o mercado, um certo movimento que está bastante em alta no ecossistema cultural de uma forma geral, a latinização do mercado internacional. Cada vez mais grandes empresas têm deixado de lado o mercado do entretenimento ligado ao sonho americano para investir na capacidade de engajamento do latino-americano, especialmente o público brasileiro. Isso gera dois resultados, se por um lado valorizamos mais nossa cultura e nossos artistas, os cachês estão também cada vez mais caros, inclusive com alguns artistas privilegiando eventos fora do Brasil, pois pagam em Dólar ou Euro. Assim, é preciso pensar em alternativas. 

Nesse sentido, o produtor e fundador do coletivo [M]EIO acerta no diagnóstico quando lembra que junto a essa latinização o público brasileiro consome, de forma geral, a experiência como um todo ligado a marca, ou ao evento. O público quer se sentir pertencente ao espaço que visita, então compra a camiseta do evento, segue e procura informações do artista anunciado, procura formas de engajar ativamente para ser visto e reconhecido como parte daquela tribo. 

Mas Castrø aposta em outra coisa, ele afirma que o foco da [M]EIO é criar uma atmosfera e um evento que foque na música enquanto identidade. Castrø argumenta: “Queremos criar eventos em que a pista seja o mais seca e escura possível, com sets que durem no mínimo 2h, em que o artista tenha total liberdade de pesquisa e tempo de composição de atmosfera. Quando fazemos isto, a gente tira o foco da performance e do ato de instagramar a experiência como um todo, a ideia aqui é consumir cultura a partir do ponto de vista da música, a cena eletrônica sempre foi sobre se sentir à vontade para se ser quem quer que seja, desde do engravatado que vem para a pista com terno direto do escritório, à pessoa que não tem as melhores condições de pagar um ingresso caro, mas que tem acesso às nossas listas, ou primeiros lotes com preços mais acessíveis que sempre anunciamos.”

Dj Allana Letm tocando na festa 6ª Edição da festa [M]EIO, Foto: Eudig 

Aqui a ideia da performance está ligada à música e à imersão ao set do artista desenhado unicamente para aquela festa. Neste sentido uma das principais políticas do coletivo em seus eventos é a implementação do phone policy, que no caso da [M]EIO é tampar às câmeras do celular com um adesivo da festa, como uma tática — que no evento que eu fui foi seguida pela maioria — para coibir o registro de fotos e vídeos.

Levando a festas para ambientes que reúne jogo cênico por parte dos artistas que tocam e performam no palco, jogo de iluminação que acompanha o ritmo da música, arquitetura que amplifica a experiência de imersão e uma curadoria que privilegia nomes em ascensão dentro da cena underground, o coletivo tem se estabelecido como uma boa aposta para quem está cansado de festas em que as pessoas vão muito mais por conta de um certo status do que se entregar para um bom set.

O coletivo vem assim construindo uma identidade própria em que a pista é marcada pela presença e pelo ato de se deixar ser levado pelas ondas de uma música que chega no seu corpo fazendo esquecer a semana de trabalho e o celular por algumas boas horas de dança.

A próxima festa acontecerá dia 10 de Outubro, têm entre os Djs confirmados Marcal, artista de Goiânia que vem se consolidando na cena eletrônica na América do Sul, sendo convidado para diversos eventos, ele tem sido bastante elogiado pela mistura única de elementos psicodélicos e de percussão, o que leva a criar uma atmosfera com ritmos intensos, mas com uma paisagem sonora alucinante, em que loops hipnóticos faz as pessoas, fãs do gênero, ficarem envolvidas pela música por um longo período de tempo.

Outro artista já confirmado pela produção do evento é o austríaco Arthur Robert, artista bastante conhecido pelos chamados gêneros off-shot — que são os diversos subgêneros dentro de categorias maiores da música eletrônica, como o próprio Hypnotic Techno que até aqui tem sido o principal estilo de música do coletivo —, esses subgêneros atravessam sua pesquisa principalmente a partir da linguagem cinematográfica, fazendo parte dessa nova geração de artistas da cena eletrônica mundial que apostam em BMPs reduzidos e mais cíclicos, ele bebe das fontes de design de sons do cinema para criar atmosferas imersivas, levando o público a se sentir em quadros parados no tempo, mas que é gostoso de se estar. 

Vale a pena ficar de olho nas redes sociais da festa e no aplicativo de vendas da Shotgun, em breve a próxima festa deve ser anunciada e fugindo dos valores praticados hoje por eventos que conseguem criar toda essa atmosfera e experiência, os primeiros lotes tendem a ser bem acessíveis.

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