Na noite anterior, Machine Gun Kelly precisou explicar por que estava ali. Diante de uma plateia parcialmente hostil no Rock in Rio, cercado por nomes mais associados ao metal, o músico interrompeu “I Think I’m OKAY” para reconhecer que parte do público não entendia sua presença naquele palco. “Estou aqui pelos meus fãs. E estou aqui para te transformar em um fã”, declarou.
O último show da Lost Americana Tour, no entanto, encontrou em São Paulo uma plateia que já conhecia não apenas as músicas, mas também as piadas, códigos, as fases e as contradições de MGK. Foram duas horas e mais de 30 performances diante de um público que se recusou a parar de curtir por um minuto sequer. Da grade ao mezanino, via-se gente cantando, pulando e gritando junto música após música.
O contraste também ajuda a confirmar que talvez MGK não estivesse exatamente no festival errado, mas certamente estava no dia errado. Sua combinação de pop-punk, emo, rap e rock alternativo provavelmente teria encontrado uma recepção mais natural no dia 13 de setembro, ao lado de Halsey e Twenty One Pilots. “forget me too”, justamente sua colaboração com Halsey, foi uma das músicas que mais enlouqueceram a casa de show da capital metropolitana. A reação mostrou que existe um público brasileiro para o universo de Colson, apenas não necessariamente misturado a uma plateia que aguardava Bring Me the Horizon, Avenged Sevenfold e Sepultura.
Na Audio, Machine Gun Kelly encontrou um lugar seguro, visivelmente. Conversou diretamente com representantes do seu fã-clube do X (antigo Twitter), leu cartazes, recebeu pelúcias cômicas de presente, respondeu a pedidos de canções e levou duas fãs mirins para pular no palco com ele. Durante toda a noite, fez com que seus fãs se sentissem em casa: brincou, riu e se emocionou junto ao público. A sensação era de que não queria encerrar o show, e dava para ver que todos ali compartilhavam exatamente o mesmo sentimento.

Embora carregue o nome de seu sétimo álbum, a Lost Americana Tour nunca foi exclusivamente sobre Lost Americana. Em São Paulo, ela se transformou numa retrospectiva da carreira: atravessou o rap dos primeiros anos, a fase de Hotel Diablo, a explosão pop-punk de Tickets to My Downfall, o excesso de mainstream sellout e as tentativas mais recentes de reunir todas essas identidades. Durante “bloody valentine”, fãs colocaram as namoradas sobre os ombros; em “forget me too” e “drunk face” a casa pareceu ganhar vida de tanto que o chão vibrava, abriram-se três mosh pits durante as músicas mais animadas e até faixas menos óbvias foram recebidas com a mesma familiaridade dos hits mais consolidados. O repertório reforçou que, independentemente das discussões sobre originalidade ou pertencimento ao gênero que escolhesse, MGK construiu uma relação geracional suficientemente forte para que seus discos sobrevivessem para além do lançamento.
As dançarinas, porém, foram o ponto mais questionável do espetáculo. Com figurinos e coreografias de gosto duvidoso, pareciam pertencer a outro show. Um excesso que pouco acrescentou a uma apresentação cuja maior força estava justamente na conexão direta, sem grandes intermediações, entre palco e plateia.
Além disso, algumas das críticas que o cantor recebe são legítimas: sua música é profundamente dependente das referências que a antecederam, e sua persona de rockstar por vezes parece mais uma fantasia do que uma identidade espontânea. Mas, embora MGK ainda se apoie intensamente na caricatura: cigarros, guitarras extravagantes, provocações, dançarinas e coreografias, reduzir sua trajetória a uma fraude cuidadosamente planejada também ignora a relação visível que construiu com o público. É difícil sustentar a ideia de completa artificialidade diante de uma casa inteira cantando em plenos pulmões inclusive as músicas mais antigas e menos óbvias, ou da emoção de um artista que parecia resistir ao momento de deixar o palco.
O último show da turnê foi menos imponente do que as versões completas da Lost Americana Tour apresentadas em grandes arenas. Em compensação, encontrou algo talvez mais valioso para uma despedida: intimidade. O músico pôde se soltar e prolongar as interações sem a obrigação de convencer um público que já havia decidido o que pensava sobre ele.
Em São Paulo, cercado por quem já o acompanhava, pôde finalmente deixar de argumentar em favor da própria existência. O resultado foi um show mais conectado e eletrizante, e uma despedida coerente para uma turnê dedicada à ideia de se perder para tentar descobrir quem se é.









