Miley Cyrus fala sobre nova era para Daryl Hannah em entrevista para a Wonderland Magazine

Em entrevista para a Wonderland., Miley Cyrus fala sobre querer voltar aos palcos e sobre a nova fase de sua carreira.

Tradução da entrevista de Miley Cyrus para a revista Wonderland de julho de 2026, realizada pela atriz Daryl Hannah com fotografias de Mario Sorrentino.

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O status de Miley Cyrus como um dos icones mais duradouros da geração foi reforçado com a celebração do aniversário de 20 anos de Hannah Montana em março deste ano. Agora, enquanto se prepara para uma nova fase de sua carreira, ela convida uma de suas heroínas culturais, Daryl Hannah, estrela de Kill Bill e Blade Runner, para explorar sua nova era.

“Nós dividimos um nome” diz Daryl Hannah à Miley Cyrus. De fato – como comemoramos em março deste ano, em 2006, Miley deu ao sobrenome “Cyrus” uma identidade totalmente nova na cultura pop. A primeira a se aproximar da notoriedade de Daryl Hannah cerca de duas décadas e meia antes.

Ao se tornar uma lenda do cinema graças aos filmes emblemáticos em que esteve presente, a lista das primeiras contribuições culturais de Daryl parece representar o impacto de uma vida inteira para a maioria dos artistas. O mesmo pode ser dito de Miley, que aos 18 anos, depois de comandar aquele que foi o maior fenômeno televisivo global dos anos 2000 com Hannah Montana, poderia ter se afastado da vida pública e, ainda assim, seria celebrada como um ícone cultural que já havia feito mais do que o suficiente.

Daryl Hannah: Esse novo projeto terá canções de amor?

Miley Cyrus: Esse álbum é uma história de amor, mas história amor nunca são unidimensionais. Elas sempre acontecem em camadas. Definitivamente existe uma onda de romance passeando por aí porque, como em todos os meus álbuns, é um reflexo do que estou vivendo no momento. Esse, em específico, soa uma pouco mais significativo, já que é um sentimento que está comigo por diferentes eras. É algo que eu nunca tinha vivido antes. Um tipo de amor pacífico que se tornou tema das minhas últimas três gravações. Não apenas o amor que compartilho com alguém, mas o amor que encontrei comigo mesma. Essa é provavelmente a maior evolução. Uma vez que nossa relação conosco muda, todas as relações ao nosso redor muda também. Acho que esse novo projeto celebra os dois tipos igualmente.

DH: O que o amor significa pra você?

MC: O amor é dinâmico e complexo. É algo que nós podemos sentir profundamente com nossos corações, mesmo que não possamos explicar com a nossa mente. Pra mim, amor não é algo que precisamos entender de forma tão intelectual. É uma compreensão celular.

DH: Eu percebi que os músicas que participam das suas novas músicas, são colaboradores nos créditos de composição, incluindo seu marido Maxx. Parabéns, inclusive. Foi um prazer encontrar vocês dois na cerimônia do Oscar.

MC: Obrigada. Nós amamos encontrar você e seu marido [Neil Young]. Maxx ainda fala sobre ele como o cara legal que estava comendo uma laranja nos bastidores. Musicalidade, composição e contar histórias através da música são partes essenciais de como uma canção é construída. Pra mim, uma música não é feita apenas de acordes, melodias e letras. É um sentimento. Não tem certo ou errado como uma resposta. Está vivo. Quase se tornando uma própria entidade que te diz o que precisa ser dito se você estiver ouvindo. Eu amo fazer música com pessoas que não são tão apegadas com ideias. Todo mundo está presente porque estão animadas por estarem fazendo a mesma coisa. Não existe ego na sala quando está tudo funcionando. Apenas curiosidade. É muito especial estar cercada de pessoas que querem surpreender umas às outras e estão confortáveis em descartar uma ideia ou expandi-las.

DH: Qual sua parte favorita de fazer música, compôr, gravar, fazer colaborações ou performar ao vivo?

MC: Eu amo estar alinhada com meu propósito, meu poder e meus dons. Eu me sinto muito próxima de algo maior do que eu quando as gravações fluem dentro de mim. É quase impossível descrever. É como acordar de um sonho que você ainda consegue sentir no seu corpo mesmo que não consiga explicar de forma lógica. Compôr é como atravessar para o outro lado de vez em quando. Uma música nova pode soar como algo que já ouvi antes, mesmo que não esteja finalizada ainda, de alguma fomra eu sei exatamente o que é. Quase como se eu estivesse lembrando invés de estar criando. Esse é o mistério que amo.

DH: Como é o seu processo de composição?

MC: Normalmente eu já estou certa de onde quero chegar, e as vezes isso pode prejudicar a jornada porque estou muito focada em chegar em algum lugar específico. Dessa vez foi diferente. Foi orgânico e muito natural. Uma coisa que ajudou muito foi ter começado com a tracklist e não ter me desviado dela. Eu sabia que seriam 10 músicas. Eu sabia como queria a sonoridade e o conceito. Isso me fez dar um forte passo no processo sem parecer forçado.

DH: Como o trabalho coletivo funciona quando você tem uma visão específica?

MC: Eu confiei que a visão fosse revelada invés de tentar controlar todas as peças desde o primeiro dia. Enquanto cada música recebia sua atenção, o mundo ao redor também se encaixava. Visualmente, eu entreguei as chaves da criatividade para o Alastair McKimm, que foi como essa entrevista acabou acontecendo. Mas antes mesmo de começar a trabalhar no projeto, eu já sabia como gostaria que fosse. Sabia que a cor seria vermelho. Sabia que eu estaria vestia num chapéu de couro. Sabia o enquadramento das imagens. Colaboração é uma dança. Você precisa saber quando guiar e quando seguir. Eu amo trazer pessoas que confio porque eles vão pegar a ideia e fazer ela possível. Todos trazem sua própria perspectiva, e é isso que torna o trabalho mais rico e dinâmico.

DH: Como você se sente a respeito de 45 e 78 RPMs?

MC: Com certeza tem algo muito bonito sobre uma gravação em 78 RPM. Eu naturalmente penso em álbuns como lados diferentes porque os vinis sempre foram uma grande parte da experiência pra mim. Eu amo que esse tipo de mídia está retornando. Música não deve ser consumida de uma maneira tão rápida como no streaming.

DH: Qual foi a ideia por trás de seus show no Chateau [Marmont em 2023 e 2025]?

MC: Eu queria me apaixonar novamente pelas performances ao vivo e me lembrar que não precisa sempre ser para grandes públicos. Pode ser apenas sobre conexões. As vezes sua carreira cresce, a produção fica maior também, e você pode acidentalmente acabar se afastando da razão que te fez começar. A alegria vem da troca, não dos números.

DH: Como foi tocar lá?

MC: Eu amo arquitetura e históra, e o Chateau é uma parte icônica de Los Angeles. Também é muito perto de casa, então me sinto segura e protegida lá. Tinha algo reconfortante sobre isso. É um lugar lindo pra redescobrir as performances de um jeito que pareceu tudo sob controle, o que é algo bem dificil quando você está fazendo uma turnê de grande escala. Me lembrou que intimidade as vezes pode ser mais poderoso que um grande espetáculo.

DH: Eu me lembro de te ver performar uma balada quase uma década atrás e ficar chocada com sua voz. A sensibilidade, a emoção e a vulnerabilidade eram encantadoras. Você é muito talentosa.

MC: Isso significa muito pra mim. Eu te amei por toda minha vida. Não apenas seu trabalho mas a sua contribuição ao mundo me inspirou demais. Você sempre alguém que cria com paixão, e isso é algo que eu admiro tano quanto o talento.

DH: Como você se reabastece?

MC: Meus animais são minha fonte de alegria. Ser a mãe deles me deixa muito feliz. Mesmo que eu esteja constantemente dando à eles, parece que eu acabo recebendo muito mais em retorno. Tem algo muito fácil sobre esse amor. Eles me mantém presente.

DH: Você tem algum que te resgata?

MC: Todos eles. Cavalos, uma tartatura, um coelho, pássaros, gatos, cachorros, peixes… O certo é “Quem resgata quem?” e é exatamente assim que me sinto. Eu posso até cuidar deles, mas eles cuidam de mim também.

DH: Você tem alguma rotina específica que mantém sua criatividade?

MC: Estar cercada de pessoas criativas porque é contagiante. Amo estar rodeada de poetas, escritores, artistas, pintores, diretores, fotógrafos: pessoas que vêem o mundo de uma forma que eu não vejo. Eles plantam pequenas sementes no meu cérebro que crescem na minha própria floresta de pensamentos. Criatividade se alimenta com criatividade e se multiplica quando é compartilhada.

DH: Eu sempre pensei nos 33 anos como um marco. É a idade que se acredita que Jesus tinha quando morreu. Você já teve uma carreira bem longa e incomum. Tem algo que você gostaria que fosse diferente?

MC: Pegar mais leve comigo mesma. Eu era muito nova, e muitas vezes acreditei que as ideias que as pessoas tinham de mim eram a verdade. Você passa tanto tempo ouvindo quem você deveria ser que você acidentalmente perde a própria voz por um tempo. Durante a minha evolução eu achei muito mais perdão e tranquilidade. Agora eu posso dar risada de algumas coisas loucas que fiz. Adoro os tempos de loucura. Eu abandonei essa parte da minha vida de uma forma espontânea, mas de vez em quando ainda sinto falta. Eu era destemida, como uma criança que nunca caiu descendo uma colina de bicicleta, sem nem pensar se vão se machucar. Tem algo muito bonito a respeito dessa inocência. Eventualmente a vida te ensina as consequencias, e isso é válido também. Mas esses anos foram eletrizantes. Sou grata por ter vivido e grata por ter passado por eles.

DH: Quais palavras de sabedoria você compartilharia com os jovens que estão frequentemente passando por um momento desafiador de transição?

MC: Graça: dê a si mesmo. Seja gentil consigo mesmo. Viva o presente. Aproveite cada segundo de juventude porque isso é tão bonito. Um dia você sentirá falta de coisas sobre você mesmo que você provavelmente está tentando mudar agora.

DH: O aniversário de 20 anos de Hannah Montana te trouxe perspectivas inesperadas?

MC: Revisitar aqueles episódios foi realmente muito sensível. Assistir de novo me fez pensar que fazer as pessoas sorrirem não é algo que eu performo, é parte da minha natureza. Ser brincalhona, fazer piadas, encontrar a luz… Isso é quem eu sou. Em tempos mais dificeis isso se torna um dos meus superpoderes. Eu amo fazer as pessoas se sentirem mais tranquilas. Rever isso me deixa muito orgulhosa. Eu trabalhei duro, mas também me diverti demais.

DH: Ainda vamos te ver nas telas como atriz ou por trás das câmeras como diretora?

MC: Bom… Isso é parte do motivo pelo qual eu decidi me aproximar. Eu genuinamente amo fazer o dois. Meu sonho sempre foi trabalhar com artistas que eu admiro e você é uma deles. Acredito que faríamos mágica juntas, Daryl. Eu tenho uma ideia. Me liga.

DH: Parece que muitas crianças estão interessadas na fama, mas não necessáriamente pensando em criar. Isso pode ser remediado de alguma forma?

MC: Acredito que pra tudo exista uma razão. Agora nós estamos vivendo uma cultura de recompensas rápidas e fáceis. Todos querem o resultado, mas eu não acho que isso satisfaça a alma por tanto tempo. Arte que você ama de verdade te alimenta de um jeito que aplausos nunca conseguiriam. Acho que as pessoas sempre vão encontrar seu caminho de volta porque faz parte da natureza humana de querer fazer algo duradouro.

DH: Quando você tinha 16 anos, você disse, “Agora é o nosso tempo de se preparar… Precisamos de prática antes de salvar o mundo.” Você Ainda quer salvar o mundo?

MC: Não sozinha. Eu costumava colocar uma pressão enorme em mim mesma para usar a minha voz para salvar o mundo e, com o tempo, percebi que não é assim que a mudança acontece. A mudança acontece quando cada pessoa faz a sua parte. Eu me dedico a manter a minha própria conduta e a usar o meu palco para fazer com que a compaixão seja inspiradora, porque a motivação é contagiante. Hoje em dia há tanto julgamento que acho que as pessoas tem medo de se envolver, a menos que saibam exatamente a coisa certa a dizer ou a fazer. Mas eu realmente não acredito que exista um jeito certo. Faça o que estiver ao seu alcance.

DH: Muito respeito pelo seu trabalho na Fundação Happy Hippie. Teve algo em específico que te fez focar nos sem teto e na juventude LGBTQ+?

MC: A situação de pessoas em situação de rua está por toda parte. Morando em Los Angeles, é impossível não perceber isso. Todos os dias, esta cidade me lembra que ainda há muito trabalho a ser feito. Apoiar jovens LGBTQIA+ também vem da minha própria identidade e do fato de eu fazer parte dessa comunidade. Às vezes, as pessoas precisam de recursos; às vezes, precisam de uma comunidade; e, às vezes, só precisam que alguém as lembre de que pertencem a algum lugar. Todo mundo merece isso.

DH: Quais são seus planos e sonhos pra fundação?

MC: Ainda somos jovens, com grandes sonhos. Meu maior sonho é honrar minha mãe e minha avó com o trabalho que fazemos. No momento, estamos focadas no Downtown Women’s Center, em Los Angeles, onde minha mãe e eu ajudamos a liderar uma grande reforma dos espaços. Nós os atualizamos com novos móveis que oferecem dignidade e conforto para as milhares de pessoas que utilizam o centro todos os anos. Quero ajudar a criar um lar, um lugar com alma. Não apenas oferecendo necessidades básicas, mas também espaços bonitos que lembrem às pessoas que elas são dignas de coisas bonitas.

DH: Você sente que sua voz na internet pode ser uma ferramenta muito funcional para o seu trabalho?

MC: Sim, mas eu tento balancear de forma responsável. Eu também acredito que posso oferecer uma válvula de escape para todo o peso do cotidiano e não quero perder isso. Então eu tento manter minhas missões no guarda chuva da fundação enquanto permito que meu perfil pessoal continue sendo um lugar onde as pessoas possam encontrar música, humor, moda e criatividade. Tem muitos lugares pedindo para que as pessoas escolham um lado. Eu espero que minha música possa lembrar o que temos em comum.

DH: Você parece ser bem ligada pela criatividade, fantasia e a artisticidade do mundo da moda. Você se vê trabalhando com moda no futuro?

MC: Música é o meu mundo, e por enquanto eu não tenho muito interesse em ter um negócio dentro da moda. Eu amo colaborar com designers e me levar em marcas que genuinamente admiro.

DH: Você acha que a moda pode ser ética hoje em dia?

MC: Para ser sincera, esse é um grande motivo pelo qual eu não teria a minha própria linha, porque, em grande escala, eu não tenho certeza. Eu amo peças vintage e tenho diminuído bastante o uso de peças feitas sob medida, porque usar algo criado apenas para mim uma única vez pode parecer um desperdício. A verdade é que este mundo se move mais rápido do que eu consigo acompanhar. Mesmo que eu tivesse a solução perfeita, não tenho certeza se as empresas a adotariam, porque provavelmente isso não geraria tanto lucro para elas.

DH: Você escolheu ser a editora convidada dessa edição da Wonderland. O que você mais gostou no processo?

MC: Trabalhar ao lado de pessoas que amo e acompanhar uma ideia desde o início até a sua conclusão. Nenhum de nós fez isso porque era uma obrigação. Tudo foi completamente movido pelo desejo e pela inspiração. Também adorei poder apoiar e dar destaque a artistas que admiro. Estar cercada por pessoas gentis enquanto criamos imagens bonitas ao mesmo tempo é o sonho.

DH: Obrigada por me convidar pra te entrevistar. O que te fez me procurar?

MC: Eu sempre me senti intuitivamente conectada a você da mesma forma em que estava falando sobre compôr – aquela sensação de saber mas sem conseguir explicar. Eu espero que um dia estejamos lado a lado na frente de uma câmera, criando algo do qual estaremos orgulhosas. Até lá, esse foi o lugar perfeito pra começar. Obrigada, Daryl.

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