Opinião | ‘Bibi – Uma Vida em Musical’ faz jus a vida de um dos maiores nomes do teatro

Fotografia de Leo Aversa leo@leoaversa.com

Abigail Izquierdo Ferreira, mais conhecida como Bibi Ferreira, é carioca e nascida em 1 de junho de 1922. Foi atriz, cantora e diretora e, sem dúvida nenhuma, uma das maiores estrelas de peças teatrais e de musicais que já tivemos. Ganhou destaque em solo nacional com o espetáculo Gota D’Água [a seco] e Piaf – Vida de Uma Estrela.

Bibi marcou a história da cultura do nosso povo e seu sucesso é inegável. Com talento de sobra e no auge de sua carreira, Bibi cantou em um show solo na Broadway e foi completamente ovacionada por todos os presentes. Com uma vida cheia de momentos marcantes e vivida dentro do teatro, ela não poderia ter ganhado uma biografia e homenagem melhor que o espetáculo “Bibi – Uma Vida em Musical”, um musical digno da estrela que Bibi sempre será.

Crédito: reprodução / Leo Aversa

Com uma nova (e curta) temporada no Teatro Claro, em São Paulo, “Bibi, Uma Vida em Musical” passeia de maneira bem humorada por diversos momentos da vida da atriz. Vai da época conturbada em família, quando ainda era adolescente, à sua estreia em produções internacionais. As obras que ela protagonizou são homenageadas ali, como vemos em Alô, Dolly e Edith Piaf — com uma versão incrível da música “Non, Je Ne Regrette Rien” — ou o emocionante e autoral musical de Paulo Pontes e Chico Buarque, “Gota D’água [a seco]”.

Todas essas produções ganham um espaço nessa biografia de Bibi. Algumas outras como “My Fair Lady”, por exemplo, também estão presentes mostrando como se deu o envolvimento da artista nesses espetáculos. E é interessante ver como a vida de Bibi encontra grandes nomes como o de Maria Bethânia, Cacilda Becker e tantas outras personalidades relevantes pro nosso setor cultural. E é de uma generosidade imensa ver ela distribuir papéis de destaque pra atrizes que nunca tinham sido protagonistas antes, mesmo sendo a dona da companhia de teatro da época, escolhendo papeis menores pra si.

Quem dá vida à nossa estrela nos palcos é Amanda Acosta, e a mesma faz isso de maneira excepcional. Em muitos momentos ela traz toda uma carga dramática densa, o que move e emociona a plateia no melhor dos sentidos. É certeira a escolha da direção de colocar Amanda pra interpretar a filha de Procópio Ferreira em todas as fases de sua vida, tanto criança/adolescente, quanto adulta, indo até a sua idade mais avançada.

O desenvolvimento da atriz é impecável e ela executa todas essas fases de maneira absurdamente genial. A plateia percebe com facilidade a transição da idade e o passar do tempo, que aos poucos vai pesando e tomando conta do corpo e expressões faciais da atriz. Quando chegamos ao desfecho do musical, onde Bibi celebra sua trajetória se apresentando na Broadway, em NY, Amanda desaparece totalmente e tudo que conseguimos enxergar é Bibi Ferreira. É surreal!

Crédito: reprodução / Leo Aversa

Preciso confessar que fui assistir o musical sem ter muito conhecimento sobre a obra e vida de Bibi Ferreira e achei que isso talvez fosse ser um problema para minha imersão na história, mas me enganei já que tudo é muito bem explicado, detalhe por detalhe. E essa trajetória excepcional não é revelada de maneira convencional e óbvia, como esperamos em uma biografia comum. Ao início temos três personagens principais, além da própria personagem-título: a avó de Bibi, um palhaço e uma cigana que Bibi interpretou no teatro.

Os três trazem uma dinâmica muito interessante, muitas vezes trazendo um teor cômico ou até mesmo quebrando uma barreira entre público e espetáculo. O mesmo é rico em detalhes e busca constantemente fazer jus a vida da artista e sinceramente, conseguem.

O musical traz também detalhes da vida pessoal de Bibi, que vai muito além de sua vida nos palcos e coxias. Temos muitos detalhes de seus relacionamentos amorosos, suas idas e vindas para países como Portugal e Inglaterra e como isso foi importante para seu desenvolvimento como artista, o nascimento de sua única filha Tina Ferreira e até o momento em que sua trajetória foi homenageada na escola de samba de Viradouro.

Todo o espetáculo é uma montanha russa de emoções, mesmo pra quem não conhece muito de sua história. Vivi ali cada momento intensamente junto com a protagonista, vibrando e me emocionando da mesma maneira. De todas as canções que ouvimos, cinco foram compostas especialmente para o musical. As mesmas foram assinadas por Thereza Tinoco.

Crédito: reprodução / Leo Aversa

O musical já é por si só emocionante e, foi ainda mais em 2018, quando a própria Bibi Ferreira estava na plateia se vendo homenageada, mais uma vez. O que deixou tudo mais intenso, tanto para quem estava em cena, pela responsabilidade de contar essa história pra própria protagonista dela, quanto pra quem também estava na plateia, ao lado de uma figura tão importante quanto Bibi.

Um dos pontos positivos dessa produção é como todo o elenco é muito bem aproveitado. Cada artista, em algum momento, vai ter uma música ou um momento de destaque. Fica claro que existe um motivo para eles estarem ali que vai muito além de ser o coro. O sucesso desse musical é inquestionável e ele coleciona cerca de 44 prêmios e mais de 100 indicações nas mais diversas categorias, incluindo o prêmio de teatro que leva o nome da própria artista.

E alem disso, todo o elenco é talentoso. Além de Amanda Acosta, temos Chris Penna, Gottsha, Simone Centurione, Rosana Penna, João Telles, Fabricio Negri, Carlos Arruza, Carlos Darzé, André Rayol, Julie Duarte, Fernanda Misailidis, Flávio Moraes, Larissa Landim, Luísa Vianna, Leonam Moraes, Daruã Góes e Léo Araújo.

Crédito: reprodução / Leo Aversa

O trabalho de Bibi está eternizado na vida de todo mundo que ama o teatro e este espetáculo, em específico, eterniza ainda mais toda a história. Ele a apresenta pra quem ainda não conhecia e reforça para quem a vive todos os dias. Uma parte do monólogo de Gota D’água [a seco] acabou ganhando um espaço na minha memória, vê-lo ser recitado em cena por Amanda só reforçou toda a força que ele tem.

“Eles pensam que a maré vai, mas nunca volta. Até agora eles estavam comandando o meu destino e eu fui, fui, fui, fui recuando, recolhendo fúrias. Hoje eu sou onda solta e tão forte quanto eles me imaginam fraca. Quando eles virem invertida a correnteza, quero saber se eles resistem à surpresa, quero ver como eles reagem à ressaca.”

Por Leo Pereira

Designer, Comunicador e principalmente, apaixonado por teatro musical


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