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Crítica | 20 anos de “Gorillaz” do Gorillaz

Mesmo sem saber, Damon Albarn consolidou sua genialidade com “Gorillaz”, álbum da banda homônima que completa 20 anos de lançamento.

Damon Albarn é um gênio. Ao perceber que seu trabalho com a banda Blur enfrentaria períodos de hiato, o músico uniu a desesperança da pausa do grupo com o luto de um relacionamento de anos e decidiu embarcar em um projeto com o cartunista Jamie Hewlett. Albarn e Hewlett passaram a dividir um flat, e juntos criaram o que seria o início do Gorillaz: mais um dos projetos de sucesso de Albarn. O cartunista é o criador da revista em quadrinhos “The Monkees”, e é daí que surge a inspiração para o nome do projeto audiovisual dos dois amigos – a grafia errada do nome de uma espécie de primatas era só mais um charme. Gorillaz é uma experiência, e todo o potencial criativo de Albarn e Hewlett é visível desde o início. O projeto da banda é futurístico até os dias de hoje, 20 anos depois do lançamento do álbum homônimo (e de estreia) do grupo.

Antes de introduzir o álbum, é importante que a banda seja apresentada. Seus integrantes são todos virtuais: Murdoc no baixo, 2-D nos vocais, Noodle na guitarra e nos vocais de apoio e Russel na percussão. As personagens são controladas por diversos músicos, sendo Damon Albarn o único membro. Nomes como Snoop Dogg, George Benson, De La Soul, Del The Funky Homosapien e Shaun já passaram pelo grupo, deixando diferentes marcas e contribuições. As personagens virtuais não são apenas bonecos em 2D – cada membro tem uma história de vida, além de serem inspirados em músicos da vida real. Murdoc, por exemplo, o líder da banda, foi inspirado em Keith Richards, guitarrista dos Rolling Stones.

Se a ideia de uma banda virtual parece futurística, imagine em 2001. O segundo milênio estava só começando, o século XXI tinha acabado de bater à porta. A internet ainda era discada, os telefones celulares estavam começando a ser popularizados e o maravilhoso iPod viria a ser lançado apenas no último trimestre do ano. Vinte anos depois, Gorillaz – tanto a banda quanto o állbum – está vinte anos à frente da pós-modernidade. Não é possível falar de um álbum-conceito, e sim de uma banda-conceito.

a banda gorillaz

As pessoas não sabiam o que viria depois de 2001. Naquele ano, tudo o que elas tinham era um álbum cheio de ritmos e samples. Logo depois de seu lançamento, “Gorillaz” atingiu altas posições nos charts da época, assim como recebeu críticas positivas de diversos portais. O aniversário de vinte anos do disco de estreia da banda também marca o aniversário do experimento de Damon Albarn e Jamie Hewlett, que perdura – e é digno de seu sucesso – até a os dias hodiernos. Na verdade, assim como afirma Albarn, a primeira música do projeto Gorillaz é o single “On Your Own”, lançada como uma música do Blur, em 1997.

“Gorillaz” é um álbum maciço, cômico e engenhoso. Com samples que vão de “Mannish Boy”, de Muddy Waters, à trilha sonora do filme “Dia dos Mortos”, Albarn se consagra um compositor inventivo e talentoso, enquanto Hewlett passa a ganhar mais visibilidade para seus trabalhos como artista visual. Os primeiros vídeos da banda-conceito no YouTube, publicados somente onze anos após o lançamento do álbum, mostram parte do processo de criação das personagens do grupo, bem como dos esboços sequenciais dos videoclipes do grupo 2D. A experiência da banda em seu primeiro trabalho é permeada por tantos fatores que sua sonoridade funk, dub, reggae, pop e hip hop é ofuscada. Musicalmente falando, o trabalho em si, é onipresente e instigante – entretanto, em meio a tantos estímulos, as faixas experimentais de “Gorillaz” se tornam música de mobília: deixadas em segundo plano.

“Gorillaz” é, de fato, uma brincadeira de adultos levada à sério. Para 2001, era uma banda que representava o início de uma era tecnológica. Para 2021, é um grupo que mostra como estamos atrasados em relação à astúcia e à criatividade de Damon Albarn e Jamie Hewlett.

Nota da autora: 84/100

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