“100 Noites de Desejo” entrega enredo envolvente, mas peca no tempo

Filme inspirado em graphic novel chegou ao Brasil em junho para emocionar com um romance rebelde e instigante

Baseado na graphic novel de Isabel Greenberg, 100 Noites de Desejo100 Nights of Hero, no título original— chegou aos cinemas brasileiros pela Paris Filmes na última quinta (4). Dirigido por Júlia Jackman e estrelado por Emma Corrin, Maika Monroe, Nicholas Galitzine e Charli xcx, entramos em contato com um cenário idílico, mas com temas muito reais, em que o anseio amoroso e a rebeldia feminista se encontram.

Estamos no mundo de Darkly End, um local com ares de conto de fadas, mas que é governado a punhos (ou penas) de ferro pelo governo teocrático de Birdman (Richard E. Grant). Com tantas regras de conduta impostas às mulheres, Cherry (Maika Monroe) parece ser perfeita, contudo, não teve nenhum filho, o que é estritamente necessário para sua sobrevivência… literalmente. O maior empecilho para isso: seu marido Jerome (Amir El-Masry), que nega-se a consumar o casamento. 

A vida de Cherry ganha um novo capítulo quando Manfred (Nicolas Galitzine), amigo de seu esposo, passa cem dias em sua casa com o objetivo de vencer a aposta travada entre ele e Jerome de seduzi-la e engravidá-la. Mesmo sem saber do plano, a anfitriã reconhece o charme do convidado e para se proteger de seus desejos, pede a Hero (Emma Corrin), sua ama e melhor amiga para contar histórias e, tal qual Sherazade em “Mil e uma Noites”, evitar que um final trágico ocorra.

É inegável que à primeira vista o que mais chama atenção no filme é seu visual: graças ao trabalho de direção de arte de Naomi Bailey, o espectador mergulha por um cenário que dá aquela sensação de estar em um espaço fantástico. Isto tudo unido a uma escolha assertiva de elenco, caracterização e figurino muito bem construídos por Alison Lyons.

Já na atuação, Emma Corrin é o grande destaque do filme: com um visual andrógino e uma atuação de ótima qualidade, ela cria uma presença impossível de não se perceber em cada cena. Hero, mesmo disfarçando sua desobediência civil com a prudência de seu trabalho, possui um magnetismo que, de fato, a deixa encantadora. Enquanto isso, Maika Monroe mantém sua atuação melancólica, que orna perfeitamente com Corrin, mas que entrega um contraste com o vivaz, despreocupado e inconsequente personagem de Galitzine.

Aliás, está oposição tão acentuada é um dos pontos altos do filme. Ao passo que Hero e Cherry parecem combinar por suas semelhanças e se ajustarem bem em meio as suas diferenças, Manfred é o completo oposto disso: sua virilidade massiva e sensualidade nem um pouco disfarçada, torna-o um objeto de desejo, mas também um elemento cômico graças a todo exagero de sua masculinidade e aquele ares de galã de fanfics e romances de banca, o que Nicolas Galitzine sabe fazer bem.

100 Noites de Desejo acerta em falar sobre a importância da leitura e construção de narrativa, mas perde alguns bons ganchos

Além dos dilemas românticos de Cherry, o longa ainda põe o espectador para conhecer a história (e lenda) que persegue toda a história dos protagonistas: a vida das irmãs Mina (Kerena Jagpal), Catarina (Olivia D’Lima) e Rosa (Charlie xcx), que tempos antes haviam sido condenadas por bruxaria, mas que na verdade eram secretamente leitoras, ato proibido para mulheres. 

Está lenda, que foi parte da formação dos personagens como cidadãos, os levou a caminhos opostos que colidem nestas cem noites. Este, inclusive, é um dos poucos momentos em que Manfred e Cherry parecem estar harmonizados, e Hero é a mais distante entre eles. 

No geral, a forma como a leitura e como as narrativas são construídas para caber em perspectivas e políticas, e como é perigoso ser aquela que é capaz de questioná-la, em meio a tantos que não conseguem, é colocado de forma muito bem-sucedida na história. Entretanto, em dado momento, mais para o final, isto se perde.

Ao longo do filme, houve uma composição bem arrojada dos causos, mas a sua conclusão parece um pouco corrida, mal arquitetada, com um clímax rocambolesco, só que sem aquelas atuações dramáticas, o que deixa a cena um pouco opaca para um momento tão importante do filme.

O final de Cherry e Hero é verdadeiramente bonito, digno de um Romeu e Julieta, mas teria sido ainda melhor se o impacto que elas causaram tivesse sido mais incorporado nas últimas cenas. Vemos as consequências patriarcais de suas bravuras, mas poderiam ter esticado um pouco mais o longa para mostrar mais de como elas inspiraram tantas jovens.

É inegável que este filme possui muitas qualidades técnicas e artísticas, o enredo te prende e você torce pelo amor suave e gentil de Cherry e Hero, e de seus destinos heróicos, mas todos esses ótimos atributos poderiam ser melhor exercidos se o filme fosse um pouco maior.

75/100

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