“A Odisseia”, de Christopher Nolan, transforma um clássico de quase três mil anos em mais um marco do cinema-espetáculo

Filmado inteiramente em IMAX, o longa de Christopher Nolan impressiona não apenas pelo domínio técnico, mas pela maneira como utiliza a tecnologia para potencializar a narrativa


Desde o surgimento do cinema, diversos desafios e transformações foram impostas sobre a indústria de fazer filmes: O preto e branco deu lugar à cor, o cinema mudo encontrou o som, a televisão passou a disputar espaço com as salas de exibição, o streaming mudou hábitos de consumo e uma pandemia colocou em dúvida o futuro da experiência coletiva diante das telas. Ao longo dessa história, tecnologias, astros, diretores e tendências vieram e se foram. Alguns acompanharam as transformações do seu tempo, enquanto outros ajudaram a defini-las. A Odisseia (The Odissey, no título original), de Christopher Nolan, parece ser um exemplo desse último caso.

Filmado inteiramente em IMAX, o longa impressiona não apenas pelo domínio técnico, mas pela maneira como utiliza a tecnologia para potencializar a narrativa. Com uma produção monumental, um desenho de som avassalador e uma trilha sonora competente na condução da jornada de Odisseu em uma tensão constante, A Odisseia ainda encontra em sua fotografia um meio de transportar sua audiência para outra época.

Anne Hathaway em A Odisseia (reprodução Universal Pictures)

Sendo, sem dúvidas, um daqueles filmes que explicam a necessidade das salas de cinema e transformam a sessão em um evento, o filme justifica e exige o IMAX. Perceber a escala das imagens, a potência sonora e a imersão proposta muda completamente a forma de experimentar a produção, reforçando que ainda existem histórias que merecem ser vividas na maior tela possível.

Embora siga caminhos diferentes em relação ao poema de Homero, Nolan demonstra respeito pelo material original. As adaptações nunca parecem concessões, mas escolhas conscientes para tornar a narrativa mais dinâmica e ajustada para a proposta cinematográfica. Os desafios enfrentados por Odisseu continuam preservando a essência da obra enquanto encontram novas formas de surpreender quem já conhece essa história há séculos.

Com quase três horas de duração, o filme sofre com um início um pouco apressado, dedicado a apresentação de seus personagens e acelerar acontecimentos. Mas basta a jornada ganhar o mar para que A Odisseia encontre seu ritmo. Passados 15 minutos naquele universo, a aventura se desenvolve com fluidez e alterna ação, suspense e contemplação sem que sua duração se torne um grande obstáculo.

O ritmo, no entanto, cobra um preço. Alguns personagens acabam sem tempo suficiente para ganhar profundidade, especialmente os vividos por Lupita Nyong’o, Mia Goth e Charlize Theron. Lupita, em especial, entrega uma presença magnética — interpretando duas personagens distintas — que facilmente sustentaria um filme próprio.

Anne Hathaway e Matt Damon estão excelentes em seus papéis, enquanto Robert Pattinson constrói um antagonista tão convincente quanto odioso. Tom Holland, por sua vez, parece o único a ficar um passo atrás do restante do elenco. A entrega da inocência de seu personagem funciona, mas sua atuação perde força em alguns momentos — algo que talvez seja explicado pelas próprias condições de filmagem. Segundo o elenco e o diretor, a nova tecnologia desenvolvida para captar diálogos durante as gravações em IMAX exigiu que diversas cenas fossem interpretadas com os atores contracenando apenas através de reflexos em espelhos, já que a estrutura acústica instalada sobre as câmeras impedia o contato visual direto entre eles.

Robert Pattinson em A Odisseia (reprodução Universal Pictures)

E se a técnica impressiona, os efeitos visuais talvez sejam o maior exemplo de equilíbrio. Nolan consegue colocar sereias, ciclopes e gigantes coexistindo em um universo quase palpável. Tudo convence, fazendo a fantasia deixar de parecer distante e passar a integrar uma realidade paralela, aproximando uma história escrita há quase três mil anos de dilemas quase contemporâneos — Talvez porque, no fundo, a guerra, o amor, a culpa, o orgulho, o arrependimento e o desejo de voltar para casa continuam movendo pessoas da mesma forma que moviam Odisseu.

Nolan parece compreender isso, e ao invés de tentar modernizar Homero, ele faz algo mais interessante: lembra sua audiência que talvez nunca tenhamos deixado de viver os mesmos conflitos. E ao transformar essa jornada em uma experiência cinematográfica de escala raramente vista, entrega não apenas uma adaptação monumental, mas mais um daqueles filmes que ajudam a redefinir o que o cinema pode ser — e que merecem ser vividos exatamente onde essa arte continua encontrando sua forma mais poderosa: dentro de uma sala escura, diante da maior tela possível.

89/100

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