Lady Gaga lança “MAYHEM Requiem” e repagina a própria obra

A despedida do álbum “Mayhem” é na verdade um renascimento, com novos arranjos para cada faixa.

A ideia era encerrar uma das eras mais bem trabalhadas da última década: com uma turnê de demanda internacional, dois singles bem sucedidos, um espetáculo entregue no Coachella e o show com o recorde de público para uma artista feminina foram apenas alguns dos grandes feitos do MAYHEM. Mas como colocar a cereja em um bolo já tão bem decorado?

Em parceria (e exclusividade) com a Apple Music, Lady Gaga fez do Wiltern, em Los Angeles, o cenário perfeito para o show que marcaria essa despedida. Entre os shows da turnê, a ideia da artista era fazer algo diferente, intimista, marcante, e que fosse uma novidade para os fãs e para ela própria. Por isso, um dos requisitos impostos pela artista era de que os arranjos não fossem os mesmos da turnê.

Com apenas 3 dias de ensaio, Natural foi o produtor encarregado de criar uma base para que Lady Gaga e sua banda imaginassem o disco — e dentro do estúdio, entre sintetizadores e muito planejamento, o show tomou forma. Se no começo a sonoridade do projeto parecia muito mais carregada, com grandes solos de guitarra e bateria, ficou claro para a artista que a ideia era fazer o caminho contrário do que o disco já tinha como proposta: “eu quero entender como trabalhar meus vocais e os arranjos para não ser o que já temos no álbum e na turnê. Acho que precisamos pegar a essência, camadas escondidas das faixas e trazer isso”.

O resultado foi um projeto quase acústico, mas não de forma tradicionalmente convencional. Os diferentes sintetizadores deram o tom das performances, sim, mas as faixas ainda têm seus momentos grandiosos, como em “Shadow of a Man”, “Disease” e “Abracadabra”. Enquanto “LoveDrug” se tornava quase uma canção de ninar, “Killah” recebeu seu tratamento industrial com influências do trabalho de Nine Inch Nails, e “Die With a Smile” brilhou com interpolação de “Nightcall”, de Kavinsky com a brasileira Lovefoxxx.

O uso de vocoders em diversos momentos do show foi estratégico e muito bem aproveitado, contrastando com trechos em que a voz de Gaga rouba a cena, e criando uma atmosfera ora fantasmagórica, ora futurista. Sobre esse último ponto, o conceito do show previa essa mistura no tempo. Nos bastidores do espetáculo, vimos um trecho da concepção em que a artista definia a apresentação para funcionar como se, em 100 anos, uma pessoa encontrasse a Opera Haus (palco da turnê do MAYHEM) destruída e a remontasse de alguma forma, marcando o presente.

Ao assistir ao MAYHEM Requiem, percebemos que de fato, todos os elementos convergem para esse renascimento: o palco e os instrumentais desconstruídos, o sintetizador hipnotizante e as brincadeiras vocais. Tudo funciona como algo que já conhecemos, sim: as melodias, letras e atmosfera do disco original. Mas existe agora um sentimento de frescor, escuridão e novidade que deixa uma nostalgia no ar e transforma o projeto em algo suspenso entre passado e futuro — um resultado que apenas uma artista no controle da própria narrativa poderia proporcionar.

93/100

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