The Boys foi tão fiel à sátira aos heróis que, emulando o gênero, também entrou em decadência

Fenômeno do Prime Video comprovou que o talento criativo de Eric Kripke tem validade de 5 temporadas

Quem viveu a adolescência e o início da juventude nos anos 2010 certamente conhece o nome de Eric Kripke por conta de Supernatural. E é quase uma unanimidade entre os espectadores não tão aficcionados dos irmãos Winchester que a série funcionou até sua quinta temporada. Por isso, ver o nome do showrunner nos créditos de The Boys – junto com os vários atores da produção da CW dando as caras aqui – não era algo novo, e as notícias de que o quinto ano seria a conclusão da história dos heróis trouxeram até certo alívio. 

The Boys teve a incrível façanha de ser uma adaptação melhor que o produto original, os quadrinhos de Garth Ennis. E nas três temporadas em que foi a única produção do universo, a série reinou na cultura pop, e com razão. Porém, é justamente quando ela decide expandir seu universo, algo que seria alvo de suas críticas nos primeiros anos, que a narrativa se perde.

Em seu quarto ano, tendo que abranger os acontecimentos de Gen V, spin-off já cancelado, a série começou a dar tropeços cada vez mais aparentes. No entanto, com a temporada derradeira se aproximando, foi prometida uma conclusão à altura do que foi construído, mas, o que se viu foi uma produção que, ao mesmo tempo que corria para fechar seus arcos, também agia como se tivesse mais 15 temporadas por vir. 

O senso de urgência dividia local com um cinismo de se estar alheio aos seus próprios acontecimentos, em um espaço onde esses dois conceitos não podiam habitar juntos. Esse é o problema mais crônico do último ano: mesmo não tendo mais futuro, a série decidiu mirar no horizonte de seu universo, deixando sua própria história em segundo plano e transformando o principal produto em um outdoor de produções vindouras, como o próximo spin-off, Vought Rising.

O texto ainda estava ácido e atual – por mais que as piadas sexuais e a sanguinolência fossem saturadas ao máximo; o incômodo vem justamente nas decisões criativas, motivadas puramente por conveniência. A batalha final segue a mesma configuração da travada na terceira temporada, por exemplo, o desfecho só foi diferente pois precisava ser. Personagens foram subutilizados pois era mais fácil para o roteiro, como os de Gen V, que foram prometidos como importantes, mas se reduziram a uma mera participação especial.

Aliás, a quinta temporada de The Boys é uma ótima porta de entrada para quem quer começar a entender um pouco mais de escrita. Por mais leigo que você seja, é impossível não contestar os rumos tomados, que por vezes ignoram o que eles mesmos estabeleceram.

Antony Starr como Homelander (Capitão Pátria) (crédito/reprodução)

Apesar da condução desastrosa, os atores que já apresentavam destaque seguem servindo, em especial Antony Starr como Capitão Pátria. Mesmo o personagem não entrando em colapso como prometido, o ator soube captar exatamente a sensação de se sentir cada vez mais sozinho à medida que se tornava mais poderoso. E, mesmo com o final narrativamente fraco como um todo, é justamente o Homelander que se destaca, lembrando porque ele é um dos vilões mais emblemáticos da década.

Justiça seja feita, o último episódio até apresentou um desfecho satisfatório, mas também não é honesto resumir uma temporada problemática somente nas conclusões dos personagens. Da mesma forma, toda a produção não pode ser sintetizada por um ano fraco, embora ele tenha deixado uma mancha na jornada. 

No seu auge, The Boys foi a sátira necessária para uma sociedade tão absurda, assim como Black Mirror foi para a tecnologia. Se antes falávamos “Isso é muito Black Mirror”, hoje podemos falar tranquilamente “Isso é muito The Boys” em qualquer analogia política. Por coincidência, a antologia da Netflix também se perdeu por se estender demais e virou uma caricatura de si própria. No caso da produção da Amazon, pelo menos soube-se quando parar antes da derrocada completa, mesmo claramente esse não sendo o desejo.

60/100

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