Entre o amor e a neurose, terceiro disco de Olivia Rodrigo mostra que a maturidade da vida também a acompanha na música

Com produção sublime e a benção de Robert Smith, Olivia compartilha as inseguranças, sonhos e delírios que seu já não tão adolescente coração viveu e vem vivendo

Chiclete, diferente e com um visual marcante, aos 17 anos Olivia Rodrigo já tinha honestidade na ponta da caneta e um monte de perguntas na ponta da língua na hora de revelar seus medos mais vulneráveis e seus lados menos bonitos: inveja, baixa autoestima, o fim do mundo no partir de um coração são temas naturais colados com adesivos de estrelinha em tom pastel em SOUR, seu disco debut de 2021. Ele entregou o hit pandêmico meloso e queridinho do Detran que é a balada “drivers license”. Esse mesmo trabalho abriga a rockeiríssima “brutal”, na qual ela também desabafa sobre ser péssima fazendo baliza, e outras músicas virais como “deja vu” e a polêmica pop-punkesca “good 4 u”. 

Já mais velha em GUTS (2023), canções como ”ballad of a homeschooled girl”, “making the bed” e “pretty isnt pretty” falam sobre autossabotagem, os medos da própria capacidade artística e o amadurecimento forçado, junto com as pressões estéticas que acompanham a vida da jovem criada sob os holofotes da Disney. Apesar disso, Olivia também sabe ser ácida para admitir que se passa, se arrepende, pensa muito na vida alheia, mas zomba um pouco das situações que vive, como admitir que quer muito voltar com o ex, mas sabendo que ele é um fracasado em “get him back”.

Mestre em criar canções fofinhas com letras autodegradantes, melodias fúnebres com declarações de amor e tratar seus ouvintes como confidentes, é como ler o diário da menina, mulher adulta, que vem crescendo aos olhos do público e conseguindo, para além da vida pessoal, traduzir bem as mudanças nada sutis que essa fase da vida dela parece pedir. Por isso, em you seem pretty sad for a girl so in love, seu novo álbum lançado no último dia 12 (ironicamente, dia dos namorados exclusivamente no Brasil) não há como ouvir o trabalho sem sentir, na primeira vez, como se uma onda te engolisse. 

Olivia Rodrigo para o you seem pretty sad for a girl so in love (reprodução)

Mudança de planos

Corre à boca miúda (twitter) que o OR3 era para ter saído antes, mas o término entre a cantora e o ator Louis Partridge fez a diva recalcular a rota. Bem, o trabalho que veio ao mundo não é o dos mais românticos. Ele começa com a ligeiramente enjoativa “drop dead”, um synthpop sobre o nervosismo de começar um relacionamento e a vontade de ignorar as red flags para ver dar certo. Ainda que essa e neurótica “the cure” não sejam os singles mais fortes de Olivia, é na estrutura do disco que várias das melhores faixas da carreira até o momento estão.

“Stupid song”, assim como a ótima “vampire” (SOUR), começa tímida até explodir numa bridge regada a guitarras e a gata soltando a voz, mas a mais recente também tem a seu favor o primeiro grande marcador do crescimento lírico de Olivia. Joga com as palavras ao admitir um amor talvez nem tão recíproco, mas exteriorizando seus caprichos sobre querer que a pessoa sinta o mesmo frio na barriga que ela sente quando fala dele — em algum lugar a psicanálise tem uma resposta pra isso. 

“honeybee” é um majestosa balada e das canções mais bonitas escritas por ela. No disco, é seguida pela dupla que flerta com new wave e post punk à maneira de Olivia: “maggots for brains” e “u+me=<3” entregam o alô ao The Cure. Já “my way” faria uma desbocada Alanis Morissette sorrir. Mostram que Olivia andou aprimorando o dever de casa com seus artistas favoritos: inspirações que começaram em casa com a mãe.

Um destaque é a forma como a cantora transmuta de um jeito único para sua obra esse repertório único de ídolos. No som pop rock que ainda é a grande espinha dorsal da discografia, pode-se perceber que, a cada novo trabalho, a sonoridade tem se ramificado em várias outras direções. E nada prova mais o quanto ela tem dado certo do que ser reconhecida por essas referências e, de quebra, acenar, mesmo sem intenção, para um público mais velho e não tão fã de divas.

“Whats wrong with me”, único feat do álbum e primeiro a integrar um disco de Olivia, é um ótimo exemplo disso. Delicada, grandiosa, melancólica, é o melhor que se esperaria da dramaticidade de seu encontro com Robert Smith, no jeito teatral de narrar amor enquanto o pior dos sintomas. Dupla adorável, Smith é um fofo que claramente apoia e viu em Olivia a reverência com o trabalho do The Cure.

Olivia Rodrigo para o you seem pretty sad for a girl so in love (reprodução)

Escrita em evolução

Para além dessa evolução na sonoridade, outro ponto que torna you seem pretty sad sublime é a forma como ela aprendeu a desdobrar suas emoções como compositora. A artista de números expressivos e fanbase fiel costuma ser associada pelos mais leigos a pop adolescente para viralizar no TikTok, mas faixas como “less” e “begged” expõem a nova profundidade que Olivia tem conseguido imprimir em suas letras a partir do que sente.

O que antes parecia mais como sofrência sem fim, agora vira questionamentos mais maduros. Como tudo parece tão fora do lugar nesse relacionamento perfeito que ela tanto esperou? Ou será que isso tudo não era apenas o mínimo, então, lógico, não suficiente? Admitir que sim para ambas as perguntas pode parecer difícil, mas o faz, e provoca quem diga, a um término, ‘que foi bom enquanto durou’. Alguns, como versa em “cigarrette smoke”, são mais dignos de arrependimento.

Depois de chamar o ex de sociopata por arrumar outra em menos de um mês e adimitir que passa mais tempo pensando na ex do atual do que em si mesma, agora é hora de ela revelar que tem como hobbie confabular sobre todas as pessoas com quem seu namorado já transou até cair no choro. Talvez essa ainda não seja a versão de Olivia mais despida de suas alucinações e sabotagens mas, com certeza, é a mais certa daquilo que, junto à excelência de suas produções, a projeta como um nome singular: a sinceridade de seus sentimentos.

88/100

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