The Strokes recicla velhas fórmulas em “Reality Awaits”

Vale a pena ouvir o novo álbum do The Strokes? Analisamos “Reality Awaits”, as influências do The Voidz na voz de Julian Casablancas e as contradições do novo lançamento do quinteto

Passaram-se seis anos desde The New Abnormal (2020), o disco que não só quebrou um incômodo jejum de sete anos sem inéditas da banda The Strokes, mas também rendeu ao quinteto nova-iorquino o primeiro Grammy de sua carreira na categoria de Melhor Álbum de Rock. O hiato, no entanto, passou longe de significar silêncio. Nesse meio-tempo, o vocalista Julian Casablancas manteve a engrenagem criativa a todo vapor com os seus projetos paralelos — a exemplo dos experimentos ruidosos com o The Voidz —, testando texturas e limites vocais que acabaram, inevitavelmente, respingando na trajetória da sua banda de origem.

Agora, o quinteto se reúne para lançar Reality Awaits, seu sétimo disco de estúdio. O trabalho retoma a parceria bem-sucedida na produção com Rick Rubin, profissional meticuloso responsável pelos principais sucessos dos Red Hot Chili Peppers. No entanto, a julgar pela primeira audição, a ideia de “espera” que batiza o álbum diz respeito a um reencontro do grupo com o seu próprio universo.

Faixa a faixa

Psycho Shit“, faixa de abertura do disco, apresenta acordes menores que poderiam indicar uma sonoridade incômoda, como em algumas composições do disco anterior dos Strokes. Quando a voz de Julian Casablancas introduz o autotune, o conhecedor médio de seus trabalhos paralelos pode remeter à sonoridade do grupo The Voidz — assim como o que acontece no disco anterior dos Strokes. A lírica complexa da primeira estrofe traz a sensação de um trabalho gutural, o que não é tão verdadeiro assim. De acordo com a cadência da canção, as emoções afloram e se sobrepõem às palavras rebuscadas.

A segunda faixa mostra que a temática das letras segue o padrão de lamúria de quem está em um relacionamento unilateral, ou de quem lamenta sentir a nostalgia trazida pelas memórias. Em “Dine N’Dash“, a introdução da guitarra de Nick Valensi traz uma vibe do pop oitentista, mas com uma narrativa das produções que só viriam na década seguinte.

Lonely in the Future” é a terceira faixa e uma das mais animadas e características dos Strokes no disco. É como se ela pudesse figurar em qualquer um dos últimos três discos da banda. Mais uma vez, o eu lírico se alimenta do passado para nutrir acordes animados e básicos que, para quem não presta atenção na letra, podem fazer pensar se tratar de uma canção feliz.

Um dos singles pré-lançados, “Falling out of Love” é a composição que vem em seguida. Trata-se de um repeteco dos itens já apresentados anteriormente em “Psycho Shit”: autotune, lenga-lenga e a menção a Lúcifer que não pode deixar de ser feita nos discos do The Voidz. Mais uma vez, parece que Julian Casablancas confundiu os papéis de suas composições, mas seus companheiros da banda que o tornou conhecido toparam gravar — e voilà.

Easter egg

Going to Babble On“, quinta faixa do disco, segue a receita padronizada apresentada em “Lonely in the Future” — e comprovada por suas primeiras aparições públicas. Anteriormente nomeada “Starting Again”, a música foi apresentada ao público pela primeira vez em 2021, quando a banda demonstrou seu apoio a Maya Wiley, então candidata à prefeitura de Nova York, cidade de origem da banda. Esse fato, juntamente às informações mencionadas anteriormente, demonstra um grande trabalho de reciclagem dos Strokes em Reality Awaits. Até mesmo o nome do disco dá uma complementaridade ao trabalho anterior, The New Abnormal. Aqui, a realidade espera pelo novo anormal, que é a repetição dos estilos que a banda construiu desde seu surgimento e vem consolidando em seus trabalhos mais recentes.

Tal similaridade pode causar a sensação de “mais do mesmo”, sendo que isso é o que acontece quando um artista — neste caso, uma banda — tem boa receptividade de seus trabalhos, até mesmo dos mais inventivos. A percepção sobre Reality Awaits é de que os Strokes juntaram todos os ingredientes e criaram um disco que contempla um pouco de cada característica que os permitiu completar Bodas de Prata de banda. Se, para muitos, a inventividade incomoda, a pouca ousadia deveria ser tomada como uma zona de conforto.

Outra retomada do trabalho da banda acontece na capa do álbum. Dentre toda a discografia dos Strokes, apenas o primeiro long-play — e agora o mais recente — traz uma fotografia em sua capa. Um cowboy em seu cavalo, com o título em destaque, sem apresentar o nome da banda. Um pouco de azul, um pouco de vermelho, com a granulação da imagem fazendo uma referência ao retrô que também aparece na sonoridade — quem sabe?

A sexta faixa de Reality Awaits é o single anteriormente lançado “Going Shopping“. Não fosse o autotune, o ouvinte poderia jurar que se trata de um trabalho anterior da banda, mas não. Menções como essa não são reprovações, mas sim apreciações do trabalho consolidado dos Strokes. A banda conquistou seus méritos justamente por tal sonoridade — por que, então, julgar um pássaro por voar?

O último terço de Reality Awaits

A sonoridade recém-estabelecida no álbum anterior (que tem longínquos seis anos de lançamento) aparece novamente em “Liar’s Remorse“. Uma das composições mais completas do disco, com ingredientes que fazem um grande mousse. Há consistência, textura, sabor, acidez — e tristeza quando acaba. O gosto fica na boca mesmo quando “The Fruits of Conquest“, a faixa seguinte, começa. A percussão do brasileiro Fabrizio Moretti é levemente tropical, lembrando os trabalhos mais alegres e recentes do Weezer. Outros elementos que trazem esse intertexto são as modelagens de voz que Casablancas experimenta ao longo da composição. O fim de cada verso remete à voz de Rivers Cuomo, sem contar o refrão. A ponte, no entanto, retoma o trabalho de Casablancas no The Voidz.

Tyrants of the Mellow Moon” encerra Reality Awaits sem que o ouvinte note, o que permite que o disco seja cíclico na sonoridade. A letra, no entanto, retrata a despedida de um ciclo que chega ao fim, misturando um sentimento de aceitação resignada com uma ansiedade pelo que vem a seguir. O eu lírico reconhece que cumpriu seu papel, mas deixa nítida a urgência de não querer perder a próxima oportunidade, expressa no refrão repetitivo.

O saldo do álbum é um trabalho confortável de quem já é consolidado no mercado fonográfico, mas que ainda assim experimenta. Para os Strokes, essa experimentação — assim como todas são — pode parecer novidade, mas não para quem acompanha Julian Casablancas além do quinteto nova-iorquino. Nada aqui é novo: nem a sonoridade, nem os efeitos, muito menos a temática. Contudo, mata a sede dos fãs da banda, principalmente daqueles que se ativeram ao saldo de The New Abnormal.

78/100

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