Jão chega perto do extraordinário com o “Memórias Póstumas”

Entre lirismo afiado e produção que insiste nas mesmas resoluções, Memórias Póstumas revela um Jão próximo de um grande salto

A forma que Jão entregar seus trabalhos para o mundo é de fato respeitável. Dentro do cenário pop nacional esse empenho deve ser visto com louvor. Os jeitos que ele acha para expor sua arte são bonitos e acima de tudo, repleto de cuidados.

Com um trailer espetacular lançado no dia 23 de julho, aquele era a primeira preliminar para os fãs conhecerem o quinto registro de estúdio do cantor e compositor paulista: Memórias Póstumas. A prévia é potente e escancarou um lado ainda mais poético e artistico do artista. A fragilidade do disco, porém, está justamente na dificuldade de sustentar toda essa ambição.

Durante algumas frações dos 51 minutos o disco apresenta uma repetição de linhas de produção que fazem com que a lista de músicas perca vigor a partir dos primeiros momentos da segunda metade. Com o passar da reprodução isso se torna um fator crucial para a potência do registro. A sensação que vence é que já ouvimos isso algumas outras vezes.

A aparência das músicas ao longo do Memórias Póstumas peca por, na maioria das vezes, dispor soluções que não soam realmente novas dentro da discografia de Jão. Ao mesmo tempo em que ele se compromete a um conceito fantástico, encontra seu calcanhar de Aquiles ao fazer com as canções evoluam por trajetos já repetidos.

Curiosamente ou não, quando a arquitetura sonora quer ir mais fundo, ela acerta. Exemplos bons de refinamento técnicos surgem em peças como “Por Você” ou na penúltima faixa, “Passeios Noturnos”. Se colocadas lado a lado, elas mostram as vitalidades excelentes que o disco poderia ter. 

Melancólico e emocionalmente consistente

Catedral”, que abre o diário, funciona de um jeito bonito para introduzir a melancolia solar que perdura a trajetória do disco. O upbeat se transforma de modo tão sensível que leva o ouvinte a um êxtase emotivo. É sem dúvida a melhor peça daqui. Há momentos aqui que devem ser colocadas como excelentes na discografia de Jão, mas eles também trazem a tona um grande resquício do quão longe tudo isso poderia ir. Se o álbum seguisse as sustentações de execução de ideias de ao menos umas oito canções, o resultado seria mais vívido.

A sequência “Coincidências”, “O Arquiteto”, “Curioso”, “Passeios Noturnos” e “Memórias Póstumas” (excelente, por sinal) é crescentemente incomum (positivamente falando) com o passar dos dias. Muitas dessas músicas refletem ideias palpáveis para melhor definirem a vida que o álbum tem. Se houvesse uma sinergia melhor entre o liricismo e um maior risco técnico, a costura seria imparável.

No fim, Jão consegue desembaralhar, de acordo com seu repertório, as facetas que a morte, a vida, e a perda nos faz desbravar — é um excelente reflexo para ser coroado como um belo cronista. O Memórias Póstumas traz a tona a sua maturidade para lidar com essa sensibilidade diante de canções que abraçam um fio lírico muito sólido e acima de tudo, muito seu.

Esse é a partir de agora o seu projeto mais genuíno, mas também o mais melancólico. Há nele uma carga densa e pessoal que investiga as muitas formas do luto através de reminiscências líricas muito sagazes — quiçá sua melhor. De todo modo, por agora, esse ainda é um salto seguro, mas com aparência de ambicioso.

65/100

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