E foi com pontualidade britânica que os — britânicos — do Bush subiram ao palco na noite do dia 2 de abril, no Vivo Rio. Marcando o terceiro e último show da turnê “Loaded: The Greatest Hits” no Brasil, o quarteto já havia se apresentado no dia 30 de março no Lollapalooza, em São Paulo, e 1.º de abril em Curitiba. Uma coisa uniu as três performances: a setlist praticamente intacta, sem muitas alterações. Quem ficou por baixo foram os fãs que assistiram a banda no festival, dada a restrição de tempo imposta pelo evento, que fez com que os caras do Bush encurtassem a setlist em três faixas.
E ela foi marcada por clássicos, que levaram o público — em sua maioria composto por homens quarentões — a cantar a plenos pulmões. “Everything Zen” e “Machinehead” deram o start na noite, vindo em sequência “Blood River” e “The Chemicals Between Us”. “Greedy Fly”, “Quicksand” e “Identity” antecederam a performance de “Swallowed”, que teve o vocalista Gavin Rossdale solitário no palco, cantando uma versão acapella. Um pouco sofrível, mas acontece. Ainda mais quando algum tempo se passou desde o auge da banda. Uma pena. O que será que os Rolling Stones diriam sobre isso?
Lip Sync
Com pouca interação com o público e muita vivacidade, os caras do Bush se mostravam entregues ao momento. Tudo estava tão perfeito que parecia playback… e tirando a performance “Swallowed”, era mesmo. Tamanha vivacidade de Gavin dava indicativos de que a energia que o vocalista colocava em seu trabalho nem sempre era compatível com os momentos em que sua voz deveria ser direcionada ao microfone. Sua guitarra, por vezes, parecia um colar, perdendo sua função primordial: a de um instrumento. E um bem usado pela banda, uma das mais relevantes da era pós-grunge. Playback ou não, a presença de palco do frontman não incomodou a plateia, que cantou todos os versos de todas as faixas.
Aproveitando a redução dos batimentos cardíacos por minuto, enquanto os outros membros da banca retomavam seus postos, Gavin se dirigiu à plateia e falou que se sentia grato pelas três oportunidades de se apresentar no Brasil. Cumprindo protocolos, convidou seus fiéis ouvintes a escutar o álbum mais recente da banda, The Art Of Survival. Detalhe: o disco foi lançado em 2022. Nem tão novo assim, mas tá valendo.
Os contrastes de Bush
As faixas desse trabalho vieram em seguida: “Heavy Is The Ocean” e “More Than Machines”, entremeadas com “Flowers on a Grave” e a clássica “Little Things”. Mais clássica ainda, “Glycerine” veio em seguida. Novamente, os holofotes pairaram sobre Gavin, o único membro restante da formação original da banda, para que o vocalista pudesse performar, sozinho, a canção mais famosa do Bush. Esforçando-se ao máximo para ocupar todo o palco, o frontman conseguiu sustentar sua função de rock star, porém mostrando que o tempo pende sobre todas as cabeças. Por mais que tentasse, não era mais o jovem do início da banda.
Mas os fãs não se importaram — pelo menos pareciam não se importar. O show foi curto, teve presença de palco e playback. No fim das contas, tudo foi uma antítese entre o que passou rápido demais — o tempo, as músicas, o show (e o que demorou a passar) o playback, o ânimo do público, os clássicos do Bush. Três décadas mais tarde, a banda é uma das poucas representações do grunge (mesmo se tratando de um grupo de pós-grunge) na ativa. Por isso, vale a pena estar diante de uma banda que, em meio a tropeços, faz seu esforço para agradar os fãs devotos.