Refúgio e exposição estão edificando uma casa. Ainda que, no senso comum, esse seja o lugar-fortaleza para que se possa viver oculto pelas paredes, escolhendo quem ali pode adentrar, para Vita Pereira, tem sido tempo de deixar portas e janelas bem abertas. Ao escutai, ela revelou tensões, anseios e mobilizações que acompanham seu projeto mais recente.
Após revolucionar o jeito de se pensar o funk e o pop sob a perspectiva afiada e debochada de duas travestis na dupla Irmãs de Pau, a cantora, atriz, produtora cultural e diretora vem, desde o ano passado, dando novos passos em carreira solo, o que culminou no álbum Vita’s House, lançado em abril e cujo lead single, com interpolação de Mc Britney, leva o mesmo nome.
Solo, apesar da palavra, construído a muitas mãos, inspirações e ambições que vão para além da música. A obra, que, acabou de sair, está nos planos de Pereira para ganhar desdobramentos longevos: uma extensa turnê, articulação com projetos sociais e, agora, com visualizers inéditos para todas as canções do disco:
Ancestralidade Travesti
Não é necessário uma olhada minuciosa para a ficha técnica do manifesto de Vita para ver nomes de peso como Linn da Quebrada, Urias e Candy Mel dentre os feats do disco, movimento que marca faixas intensas e que revelam mais do que a parceria entre artistas de nicho, mas as possibilidades de conexão construídas entre outras figuras importantes da música brasileira, com Vita pontua :
[Vita] Acho que a gente não tá só honrando as que vieram antes, mas também celebrando com as que estão aqui agora, apontando para esse futuro, que precisa ser um futuro que a gente tenha dignidade de existência.Marcam também a presença da escritora Castiel Vitorino Brasileiro assinando composições e Gabe Lima e Nídia Aranha participando na direção criativa. Saber alinhar expectativas, reunir tantos nomes premiados (só para citar alguns deles) e, disso, obter o mais fino dos resultados, pode parecer uma tarefa complexa, mas enxergar além do burocrático é o que fez o processo para Vita ser um tanto mais leve:
[Vita] São meus amigos. Vi crescendo artisticamente, são minhas grandes referências. Juntar essas pessoas não foi uma dificuldade, foi […] de a gente querer fazer uma coisa junto, tanto que, com algumas pessoas, eu fui até elas, e outras, assim que acabou minha dupla antiga, vieram e falaram assim: “Quero somar na sua carreira, o que você precisar, pode contar comigo”. Aí eu precisei e me joguei. Uma ficha técnica de muito respeito.
Mineira de Povoado do Cruzeiro, é no eixo MG-SP que sua caminhada ganha grandes contornos. Na capital de Minas, teve um 2024 ativo trabalhando no teatro com o Grupo dos 10, e o último ano também lhe rendeu conexões com mulheres importantes do funk belorizontino, como Mac Júlia e Mc Morena.
“Foi um processo diverso”
Se a parte dos convites parece ter sido “menos complexa”, lidar com a própria efervescência artística é que balançou os processos:
[Vita] Raramente eu tenho uma ideia de começo e meio fim. E teve música que eu troquei a minha voz umas quatro vezes. Primeiro, eu queria fazer 26 faixas (no álbum). Não foi possível, porque ia ser um desperdício, no sentido de não conseguir trabalhar depois todas elas. Teve composições que eu gravei na casa de outras pessoas, na minha casa, que eu comecei lá numa viagem num voo. Foi um processo diverso, por isso acho que se tornou tão rico.A versão final do álbum conta com 17 faixas — trabalhos com produtores de diversos pontos do Brasil embalam a diversidade sonora que conta, claro, com house, mas também o funk (dentre influências do mandelão de sp e o miami bass) e o dancehall. Um time majoritariamente LGBTQIAPN+ a acompanha nesse trajeto, não para que batesse ponto: o movimento natural das forças coletivas com quem trabalha e troca faz, por si só, a troca fazer sentido.
[Vita] Não fazia sentido eu fazer um trabalho que não partisse do pressuposto da coletividade, tive muito apreço e cuidado também para quem chamar. São esses corpos que eu acredito. São esses corpos que eu acho que precisam ser valorizados em vida, eu quero criar alianças em sua maioria com mulheres, pessoas negras, pessoas trans, eu acho que isso é uma forma de mostrar um aquilombamento, que aprendi com Beatriz Nascimento. A gente não consegue vencer esse sistema só. É muito importante estarmos armados entre os nossos.Essa visão já a acompanha há um tempo. Quando morava no interior de SP, fundou o coletivo Travada — e entre mobilizações, oficinas e até festas, também conheceu a ballroom.
Para além da arquitetura física e sentimental que se pode associar a uma casa, o contexto das houses, na cultura ballroom, se pauta no princípio do coletivo, da troca e, para além de acolher entre os seus, ensinar e aprender com quem veio antes. Vita, que menciona Akira Avalanx como uma referência que a apresentou a esse universo, esteve presente na fundação da Casa Ixtranha, que hoje tem capítulos, ou representantes, em SP, BA e RN.
Seja em seu balé, com pessoas que fazem parte da ‘cena’, nas referências em letras das músicas e até na própria produção instrumental (tanto nos tempos do Irmãs, quanto em solo), com um kick aqui e ali, Vita ressalta como a movimentação também faz parte importante da sua trajetória, e até brinca: “a gente tá até brincando que o Vitas House é uma kiki de la kiki”, como são chamadas as houses fora do mainstream.
Uma entrada que começa no banheiro
Desenhado de forma que passa por vários estilos sem parecer costura mal-feita, a anfitriã decidiu começar a visita por uma entrada incomum: o banheiro. É que, entre ambiente de contemplação, pegação e religiosidade, transformar o cômodo num templo foi importante para a engenharia do disco, cujas duas primeiras faixas (“Santo Forte” e “Corpo Vazio”) se passam entre espelhos quebrados e banhos de proteção.
[Vita] Ficaria muito clichê se eu começasse o álbum na porta de casa, pois percebi que eu já hábito ela. Mas, no banheiro, eu olhava pro espelho, só conseguia me ver, erezinha, adolescente, aquilo que eu queria ser.O que, entre o metafórico e o real, também fala sobre os processos de crescimento de Vita.e mostra a versatilidade dos usos de seus cômodos sob diferentes óticas.
[Vita] Entra num lugar também de sexualidade. Já fiz muito banheirão, não tenho vergonha de falar sobre isso, porque acho que foi um lugar de experimentação para mim, sendo bicha periférica e negra. E quando eu entrei para a religião e tomava meus banhos, já era travesti: cuidando dessa armadura. Eu queria mostrar essas contradições, essa narrativa, porque depois no álbum, na faixa com a MC Morena, por exemplo, a gente começa no banheiro, depois volta para fazer outras coisas.
Viver e entender o corpo
E assim, entre o que lê, absorve e vive, Vita transforma o grande exercício de olhar para si, entre questões de corpo e gênero — e traz para o álbum essas tensões:
[Vita] Queria falar sobre disforia (em “Corpo Vazio”). Estudo muito o Paul (“Preciado”), o que ele fala sobre as tecnologias de gênero, como a farmácia, como a pornografia, como a sociedade no geral e essas várias estruturas de poder vão preenchendo esse corpo que é vazio de significados,expressões, performances. Eu volto para quando, no começo da minha transição, eu olhava no espelho, não via aquilo que eu queria ser, mas também abraçava esse lugar. O bater gilete na cara, aquilo que a gente chama de quebração, no sentido de fazer a cirurgia estética, mas também, sei lá, de uma maquiagem.Mas é sob novas perspectivas que encerra o pensamento.
[Vita] Eu já quebrei aquela representação que eu via e falo também sobre a secção do corpo, meu corpo era uma questão, era uma forma das pessoas me compararem com outras. Mas esse corpo que habito representa abundância, que, na minha casa, a mesa sempre esteve cheia.









