Opinião | A Pequena Sereia revive a magia Disney do cinema no teatro

A Disney fez parte da vida de muitas pessoas e vários dos seus clássicos já tocaram a gente em algum lugar muito especial, seja nos nossos corações ou no nosso imaginário. Tendo isso em mente, já aviso que minha escrita tem um ponto de vista muito pessoal e apaixonado por esses grandes clássicos. A Pequena Sereia não seria diferente, agora numa adaptação teatral, todos esses sentimentos podem — e conseguem — ser elevados.

Toda essa superprodução é dirigida por Lynne Kurdziel-Formato, que está a frente do musical desde 2018. Nessa nova temporada podemos notar pequenas alterações, uma vez que, das músicas aos cenários, pouca coisa foi modificada. E falando sobre essas alterações, podemos destacar a presença de Gabriel Vicente, primeiro ator negro a interpretar o príncipe Eric, e Robson Nunes, que veste a carapaça do caranguejo Sebastião, papel que Tiago Abravanel interpretou na primeira montagem.

O espetáculo reúne 250 figurinos, 1200 equipamentos de iluminação e mais de 250 profissionais envolvidos. Além disso, os figurinos de Fábio Namatame têm inúmeras particularidades: foram usados 30 mil cristais, além de 8 mil metros de fitas de cetim para as gaivotas.

Com pequenas alterações, nesse espetáculo, acompanhamos a história já conhecida da sereia que sonha em morar na superfície e está disposta a deixar sua vida submersa de lado para viver ao lado de seu amor, mesmo que para isso ela precise fazer um pacto com a malvada Úrsula, um ser extremamente egoísta que deseja dominar os oceanos.

Imagens por Pedro Dimitrow / Edição por Diego Stedile (reprodução)

No elenco temos nomes consagrados do teatro musical, como: Fabi Bang (Ariel), Robson Nunes (Sebastião), Gabriel Vicente (Príncipe Eric), Andrezza Massei (Úrsula), Lucas Cândido (Linguado); Conrado Helt (rei Tritão), Fábio Yoshihara (Grimsby), Rodrigo Garcia (Sabidão), Arízio Magalhães (Chef Louis), Lucas de Souza (Limo), Marcelo Vasquez (Lodo), completam a lista Willian Sancar, Aline Serra, Amanda Vicente, Ana Araújo, Carla Vazquez, Gabriela Germano, Letícia Mamede, Luana Bichiqui, Nay Fernandes , Daniel Caldini, Camillo, José Dias, Lucas Colombo, Lucas Nunes, Mau Alves, Murilo Armacollo, Renato Bellini, Tiago Dias, Afonso Monteiro, André Luiz Odin, Esther Arieiv e Nina Sato.

Estreando originalmente em 2018, A Pequena Sereia marca seu retorno agora, em 2022, com um elenco, em partes, parecido com a sua primeira adaptação aos palcos, mas com a energia completamente renovada. A prova disso é Fabi Bang se entregando ao papel de uma maneira muito bonita. Seu talento é inegável e vê-la dando a vida a uma personagem tão icônica e fazendo jus a ela, é apaixonante. Ela faz todo o musical funcionar muito bem, quase como um fio condutor que liga a todos de alguma maneira. É lindo assistir Fabi cantando “Meu Lugar” (Part of Your World).

“Nesses quatro anos desde a primeira temporada, passamos por uma pandemia e eu tive uma filha, o que me fez olhar de forma diferente para Ariel”, conta Fabi. “Hoje, quando o pai vem com uma retórica autoritária, querendo mandar no seu destino, ela busca seu lugar e firma sua posição.” A atriz revela até mudanças no texto, que sinalizam uma adequação aos tempos modernos. “Antes, Sebastião dizia que ela devia dedicar-se a coisas de menina; agora, ele diz coisas mais delicadas. Não pode haver essa separação.”

Andrezza Massei, conhecida nossa de Sweeney Todd, traz uma Úrsula mais sarcástica, como ela mesmo disse em entrevista e é interessantíssimo acompanhar a trajetória dessa personagem em palco. A atriz impressiona com sua interpretação de “Escravos da Dor” (ou Poor Unfortunate Souls). Junto a ela, temos Lucas De Souza e Marcelo Vasquez, que interpretam Limo e Lodo, respectivamente. Eles formam uma dupla muito divertida em cena, elevando o teor cômico que o musical tem. A movimentação milimetricamente precisa e coesa impressiona o espectador e é difícil desviar o olhar dessa dupla, que muitas vezes, funciona como uma unidade, seja completando as falas um do outro, seja no sincronismo de seus movimentos.

Imagens por Pedro Dimitrow / Edição por Diego Stedile (reprodução)

O musical traz leves alterações nos textos e coreografias, onde podemos notar a inserção de memes como o “se liga, ein!”, da Regina Rouca e até as dancinhas mais recentes do TikTok. É interessante como essas pequenas mudanças dão uma dinâmica a mais ao musical, que já funciona muito bem por si só. Um dos destaques do espetáculo fica para a maravilhosa cena de salvamento do Príncipe Eric (Gabriel Vicente). Ela conta com efeitos visuais primorosos onde a plateia, literalmente, perde o fôlego. É impressionante como o visual e execução dessa cena ficaram impecáveis.

O coro de sereias, que fica a cargo das seis irmãs mais velhas da nossa protagonista, está afinadíssimo e super divertido. As desavenças que as mesmas tem entre si ou com o favoritismo escancarado que o pai, Tritão (interpretado novamente por Conrado Helt) nutre por Ariel faz qualquer irmão mais velho sorrir ao reconhecer alguma familiaridade com a vida real. E fico feliz em destacar a naturalidade com que Aline Serra passeia, ou melhor, nada pelo gênero da comédia que lhe cai tão bem. A Atriz, além de interpretar Adela, também é cover de Ariel, ou seja, em algumas sessões, ela substituirá Fabi Bang no papel título. Uma coisa que me chamou a atenção positivamente foi o cuidado que a produção do espetáculo teve ao desenvolver uma peruca numa tonalidade de ruivo que combinasse com o tom de pele que Aline tem para essas eventuais substituições.

E falando sobre se divertir e rir bastante, Rodrigo Filgueiras dá um show ao interpretar o divertido e atrapalhado Sabidão. Na montagem de 2018, Rodrigo era o cover desse personagem e agora assume as rédeas do mesmo com maestria. Inclusive, o número de sapateado que abre o segundo ato está belíssimo.

Quando Lucas Candido — que também reprisa o papel do simpático e ingênuo peixinho Linguado –— entra em cena, fica ainda mais óbvio o talento e amor que o jovem carrega ao dar vida a personagens tão distintos, visto que há poucos meses ele interpretava brilhantemente a personagem Mary Sunshine, em Chicago. Arrisco dizer que um bom ator é aquele que nos faz acreditar no papel que ele interpreta independe de qualquer coisa, como idade, gênero, aparência física, figurino… e Lucas tem se mostrado ser esse profissional.

Gabriel Vicente revelou ser uma adição incrível para o musical ao trazer dinamismo e química surpreendentes junto à Fabi Bang. Os momentos em que ambos dividem cena em palco são lindos de se assistir, e assim como toda sua habilidade de atuação, a de canto não deixa nada a desejar. Portanto, temos um príncipe Eric à altura da Ariel que temos.

A Pequena Sereia está em cartaz no Teatro Santander, próximo ao shopping JK Iguatemi. Quintas e sextas, às 21h, sábados às 16h e às 19h e domingos às 15h e às 19h, com ingressos a partir de R$ 70. Para mais informações, acesse o site oficial.

Por Leo Pereira

Designer, Comunicador e principalmente, apaixonado por teatro musical


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