Seria a confissão uma forma de aliviar a culpa ou de evidenciá-la? Ou ainda uma maneira de vigiar o próprio comportamento diante de padrões? Ao longo da história do Ocidente, a confissão pôde ser observada de duas formas. A primeira, como caminho para o perdão dos pecados na mitologia cristã. E a segunda, elaborada pelo filósofo Michel Foucault, enquanto mecanismo de autorregulação do comportamento, como muitas vezes se faz nas salas de análise. No entanto, Madonna mais uma vez quebra a tradição ao deslocar a confissão para um novo cenário: a pista de dança. Ali, ela deixa de ser um ato de penitência para se transformar em um ritual de liberdade. O corpo ganha voz, a dança vira catarse e a música abre caminho para uma nova consciência.
Embora sua extensa lista de ofícios inclua canto, composição, produção musical, atuação, escrita e a administração da própria carreira, é na dança que ela encontra sua raiz. Antes de se tornar a maior estrela do pop global, sua origem está na movimentação do corpo diante do som. E, aos 67 anos, ao invés do recolhimento exigido pelas normas sociais para uma “senhora”, a artista enfrenta o etarismo de um mundo careta se jogando na pista, mais uma vez. Madonna pensa o mundo pelo corpo.
Seu confessionário percorre o passado da cena clubber de Nova York, especialmente o período da boate Danceteria. A faixa homônima funciona quase como uma autobiografia musical ao revisitar o início de sua carreira, nos anos 1980. Interpolando “Walk on the Wild Side”, de Lou Reed, e equilibrando house com um spoken word que remete a “Vogue”, Madonna se coloca como protagonista dessa trajetória, que desemboca no banheirão mais requisitado do século XXI em Confessions II, um dos discos mais aguardados de 2026. Lançado nesta semana, o álbum crava a volta da artista ao estúdio sete anos após Madame X (2019).

Marcado pelo retorno da Rainha do Pop à música eletrônica e disco, o novo álbum tem como base a house de Chicago, o techno de Detroit, a acid house e a french touch, além da própria trajetória artística da cantora. Concebido como uma sequência do celebrado Confessions on a dancefloor (2005), o disco fala por si só de maneira independente, embora beba do universo do irmão e também um pouco de Ray of Light (1998).
Com 16 faixas inéditas e pouco mais de 63 minutos de duração, a obra resgata uma parceria antiga da artista com a produção de Stuart Price, que também produziu a parte 1, além de trazer colaborações com Cirkut e Andrew Watt. Madonna também deu a benção a Sabrina Carpenter com um feat na música “Bring Your Love”, a mais pop do projeto, que mistura house com disco e sampleia “Good Life”, do Inner City. O dueto contrapõe gerações do pop em uma canção com forte apelo radiofônico.
As participações não funcionam como tentativa de rejuvenescimento comercial. Elas aproximam Madonna de artistas de diferentes gerações sem descaracterizar o universo sonoro do álbum. Um ótimo exemplo é a parceria com o músico colombiano Feid, na faixa “Read My Lips”, que aproxima a disco music da música pop latina atual. Além dessa, outra que mostra como a artista continua dialogando com o pop contemporâneo sem abrir mão da própria identidade é o feat com o DJ holandês Martin Garrix em “Bizarre”, um dos nomes mais quentes da cena eletrônica mundial. Supostamente sobre seu primeiro marido Sean Penn, a faixa mescla um house mais melódico com EDM.
O rapper belga Stromae também aparece na lista de participações com a balada “My Sins Are My Savior”. Talvez a canção mais íntima do disco, “The Test” foi utilizada pela estrela como ritual de cura familiar ao escrevê-la com sua filha mais velha, Lola Leon.
Um dos pontos altos da obra está na abertura com “I Feel So Free”, na qual Madonna estabelece o manifesto do disco. Com uma base de deep house inspirada na cena de Chicago, ela afirma a sua liberdade confessional conquistada pelo corpo em movimento e interpola “French Kiss”, de Lil Louis, como uma espécie de reintrodução à pista.
Assim como em Confessions on a Dance Floor, dançar aparece como um ato emocional e espiritual, não apenas diversão. Em “One Step Away”, Madonna diz que a pista é um “espaço ritualístico” onde o movimento substitui as palavras. Um dos temas centrais do disco é o perdão, especialmente inspirado na reconciliação com seu irmão Christopher Ciccone antes de sua morte. A temática surge em canções como “Fragile”, que trata da dificuldade de perdoar os outros e a si mesmo.
Pela primeira vez, Madonna parece menos interessada em desafiar a passagem do tempo do que em incorporá-la à própria narrativa. Em vez de apresentar apenas o lado sedutor do amor, o disco fala de relacionamentos marcados por fragilidade, decepção e amadurecimento. Faixas como “Betrayal”, “Love Without Words” e “L.E.S. Girl” seguem essa linha. A ideia de criar novas versões de si mesma a partir da confissão retorna aqui sob uma perspectiva mais madura: menos provocação e mais autoconhecimento. Seria o resultado das confissões iniciadas mais de duas décadas atrás?
A pista se abre antes da primeira música
A campanha de Confessions II também foi uma confissão pública. Construída para transformar o lançamento do álbum em um acontecimento cultural, Madonna começou apagando todas as publicações do Instagram e atualizando seu site com referências visuais ao universo de Confessions on a Dance Floor. Em seguida, fez uma série de aparições estratégicas, como a participação surpresa no Coachella ao lado de Sabrina Carpenter, uma festa exclusiva no The Abbey, em West Hollywood, um show-relâmpago na Times Square durante o Mês do Orgulho e a estreia de Confessions II – The Film no Festival de Tribeca. Cada ação ampliava a narrativa do álbum e mantinha o público engajado por semanas antes do lançamento.
Outro destaque foi a parceria inédita com o Grindr, que levou a divulgação diretamente para um dos principais espaços digitais da comunidade LGBTQIAPN+. A campanha incluiu conteúdos exclusivos dentro do aplicativo, uma edição limitada em vinil, transmissões ao vivo e uma experiência interativa que transformou o próprio aplicativo em parte da divulgação. Mais do que uma ação publicitária, a iniciativa reafirma publicamente uma aliança construída ao longo de décadas com a comunidade LGBTQIAPN+, que precede o período mais crítico da epidemia de AIDS nos anos 1990, quando a artista foi fundamental para encarar o estigma. Também aí existe uma forma de confissão.
Discos para dançar em tempos sombrios
Na contramão de seguir tendências atuais, o álbum busca reinterpretar as sonoridades que moldaram a carreira de Madonna e a cultura club nas últimas quatro décadas. Enquanto o primeiro trabalho fazia uma celebração à vida noturna, à sensualidade, ao escapismo, ao romance e à euforia, a sua sequência mantém a energia da pista, mas acrescenta um olhar retrospectivo sobre a própria vida, abordando envelhecimento, legado, família, perdas, perdão e liberdade criativa.
Na maioria das vezes em que Madonna traz de volta a pista de dança ao jogo, é sinal de que esse mundo não está indo muito bem. Não à toa, Confessions on a dancefloor surge enquanto os Estados Unidos de Bush filho mergulha na Guerra ao Terror após o 11 de Setembro. Já Confessions II tem como pano político de fundo uma América do Norte diante dos desmandos de um Donald Trump em um segundo mandato marcado pela radicalização de políticas comerciais, migratórias, bélicas e culturais, sobretudo contra populações marginalizadas como imigrantes e, entre outros, a comunidade trans. Em recente entrevista à Interview Magazine, Madonna disse que resolveu fazer a sequência porque “o mundo vive um momento muito sombrio e as pessoas precisam dançar”.
As confissões de Madonna
Não é só o cenário político-social que se relaciona com as duas obras sequenciais, mas também a vida pessoal de Madonna. Em ambos os casos, os discos surgiram após momentos de certo escrutínio público e problemas na vida pessoal. Em 2003, dois anos antes do primeiro Confessions, a estrela lançou American Life, um dos trabalhos mais criticados da carreira por seu tom político e de questionamento aos valores do sonho americano. A capa do disco trazia referências ao guerrilheiro comunista Che Guevara, além do clipe da faixa-título ter sido censurado por ser considerado “antipatriótico”. Embora tenha sido seu trabalho com a menor vendagem até então, foi a era que rendeu a icônica cena do beijo sáfico da artista com Britney Spears e Christina Aguilera no MTV Video Music Awards (VMA) de 2003.
Antes de Confessions II, a vida pessoal da Rainha do Pop também não andava muito bem. Seu último álbum de inéditas, Madame X (2019), enfrentou problemas comerciais. Parte da crítica especializada elogiou a experimentação artística, mas apontou como megalomaníaca a mistura de pop, fado, música latina, trap, morna cabo-verdiana e até funk brasileiro, além da abordagem de temas como política, imigração, controle de armas e identidade. Em 2023, ela passou por uma experiência de quase morte, chegando a ficar em coma induzido por conta de uma infecção bacteriana. Além disso, a cantora perdeu o irmão, Christopher Ciccone, e a madrasta, Joan Ciccone, em 2024.
A hecatombe de problemas não parou por aí. O filme autobiográfico de Madonna, que seria dirigido por ela e estrelado por Julia Garner, acabou cancelado após divergências criativas e orçamentárias com a Universal. Em seu lugar, surgiu uma minissérie produzida pela Netflix, ainda em desenvolvimento e sem previsão de estreia.
Foi em meio a esse turbilhão de acontecimentos que a artista resolveu entrar em estúdio com Stuart Price e gestar Confessions II. “Passei por toda essa escuridão no começo, escrevendo essas músicas com o Stuart, e depois fechamos o ciclo, e pensei: ‘Ok, agora o que acontece? Como saímos disso? O que acontece quando você entra em uma boate, ou entra em uma pista de dança, ou vai a uma rave?”, perguntou a artista. E assim surge o disco que deu vida a novos significados da confissão diante da vida e de si mesma. Quase como uma forma de exorcizar o passado, confessando-se enquanto se joga nas pistas, fazendo reverência e o expurgando ao mesmo tempo. Se durante séculos a confissão foi associada à culpa, Madonna propõe outra possibilidade: confessar-se pode ser, antes de tudo, dançar.









