Nepobaby, compositora de Gracie Abrams e nova aposta do girly pop: conheça Audrey Hobert

De coautora de Gracie Abrams ao álbum “Who’s the Clown?”: entenda a ascensão de Audrey Hobert, suas controvérsias e a estética do novo pop alternativo

Audrey Hobert passou rapidamente de uma figura bastante discreta nos bastidores da indústria fonográfica para o centro das atenções da música pop alternativa na gringa. O movimento é recente, vindo em uma primeira onda após sua performance no Lollapalooza Chicago e logo em seguida após sua apresentação no Tiny Desk. Comentários de diferentes teores surgiram a respeito de toda a sua persona artística, e alguns deles (os positivos, certamente) merecem a atenção, no mínimo, de quem curte um pop bem girly. Ou de quem ouve Gracie Abrams

A trajetória de Audrey (que é irmã do também músico Malcolm Todd) ganha destaque inicial pelo seu trabalho nos bastidores: ela é coautora de alguns dos principais sucessos da cantora Gracie Abrams, sua amiga de infância. A parceria estabeleceu sua reputação como uma compositora hábil em traduzir dilemas geracionais com um tom característico. Algo parecido acontece com as principais composições narrativas da Taylor Swift – “the last great american dynasty”, “Style”, “Enchanted”, “Should’ve Said No” e muitas, mas muitas outras. 

Who’s the Clown? é o primeiro álbum completo lançado por Audrey Hobert sob seu próprio nome, mas ela já havia deixado sua marca na música pop por meio de seu trabalho colaborativo com Gracie Abrams, especialmente no álbum The Secret of Us. Amigas desde a infância, Hobert e Abrams escreveram juntas “That’s So True”, faixa que se tornou o maior sucesso da carreira de Abrams nas paradas até o momento. 

Audrey Hobert por Annie Noelker (reprodução LA Times)

Hobert, que se graduou em Cinema e Televisão pela Tisch School of the Arts, da Universidade de Nova York (NYU), assina a direção do clipe de “I Love You, I’m Sorry”. A partir disso, a artista traz para o processo criativo uma bagagem visual e narrativa refinada. Essa influência do audiovisual se revela mais fortemente na construção de suas canções próprias, estruturadas com frequentes ironias, detalhes hiperespecíficos e uma abordagem quase cênica das composições.

Nepobaby

O posto que Audrey ocupa, mesmo com apenas um álbum de estúdio lançado em menos de um ano, ativa discussões sobre privilégio e acessos na indústria cultural. Filha do produtor de televisão Tim Hobert, seu nome frequentemente surge associado ao debate sobre nepobabies. Se por um lado a origem familiar abriu portas e facilitou o trânsito nos meios artísticos desde cedo, por outro a cantora busca afirmar sua identidade própria por meio de um estilo deliberadamente excêntrico e fora dos padrões convencionais do pop massivo. 

Ela não pretendia se tornar compositora, estudou roteiro na faculdade e escreveu para duas temporadas da série de seu pai na Nickelodeon, The Really Loud House. No entanto, seu trabalho no disco de Abrams garantiu um contrato de edição musical para si, levando Hobert a atuar como compositora para outros artistas. Com o tempo, percebeu que preferia a experiência pessoal de escrever para si mesma e para seus amigos próximos. 

Nas últimas semanas, a consolidação de Hobert como performer solo ganhou tração nos palcos. A cantora fez uma apresentação de destaque no Lollapalooza Chicago e, em seguida, participou do consagrado formato Tiny Desk Concert. A passagem pelo programa dividiu opiniões ao levar uma performance carregada de ironia e teatralidade, trazendo à tona um contraste que sintetiza o lugar que a artista passa a ocupar no cenário atual.

Audrey Hobert por Annie Noelker (reprodução LA Times)

Who’s The Clown?

Ser palhaço é ser vulnerável, inocente, tolo. O palhaço encena nossos medos e nossas fraquezas para que possamos rir deles, mas juntos. Há poder nessa perspectiva ingênua: ao se tornarem ridículos por meio do figurino e da expressão corporal, os palhaços permitem o respeitável público abraçar o constrangimento, o desconforto e a tragédia – em outras palavras, a rotina diária da mulher comum que avança rumo à vida adulta. Em seu álbum de estreia, Who’s the Clown? , Audrey Hobert faz o papel da boba da corte, explorando em detalhes suas desventuras amorosas e suas inseguranças mais profundas. Ao lado do produtor Ricky Gourmet, que trabalhou no álbum For Cryin’ Out Loud! (2024), de Finneas, começou a construir as canções que acabariam formando seu disco de estreia.

Há um frescor em ouvir uma compositora pop com senso de humor real, mesmo que a mente por trás das canções de Gracie Abrams seja AH. Amigas, amigas, estilos musicais à parte – mesmo que ambas sejam representantes do indie/girly pop. No entanto, as composições de Hobert para seu álbum de estreia, Who’s the Clown? , evidenciam a sensação de uma escrita exposta e vulnerável, em busca de um interlocutor mesmo sob o risco do ridículo. 

As músicas de Who’s the Clown? soam, de maneira apropriada, como uma extensão do universo de Abrams: verborrágicas, coloquiais e sem filtros. Entretanto, a segunda metade do disco passa a usar a especificidade como muleta e encontra dificuldades para transformar os detalhes biográficos de sua própria vida – bastante excepcional, diga-se de passagem – em algo universal.

No papel de boba da corte, Hobert faz piada do desespero inerente à condição humana. Quando consegue escapar das particularidades de sua própria realidade, a artista demonstra talento para transformar pequenos momentos de ansiedade, sua insatisfação com sua aparência ou até mesmo seu entusiasmo em um pop deliciosamente lúdico e anedótico. Com frequência, porém, ela interrompe esse movimento antes de atingir todo seu potencial, recorrendo aos detalhes pessoais como atalhos para sentimentos mais amplos.

É fazendo seu trabalho engraçadinho, jocoso, autodepreciativo e dançante que Audrey Hobert capta o ouvinte. Sua aparição independente do trabalho de Gracie Abrams não apresenta uma gama de atuação ampla ou até mesmo virtuosa, apenas seu jeito humorístico e a vontade de fazer arte, mesmo que isso não faça de Hobert uma artista. É como se Taylor Swift e Avril Lavigne (mas a da época de “Hello Kitty”) montassem um ursinho de pelúcia naquelas lojas de shopping. Adorável.

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