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Rock In Rio | Palco Sunset rouba a cena no dia mais esperado do festival

Nem mesmo o dia cinzento e a promessa de chuva foi capaz de parar o público do dia 4 do Rock in Rio

Nem mesmo o dia cinzento e a promessa de chuva foi capaz de parar o público do dia 4 do Rock in Rio. Entre fãs enlouquecidos e amantes do festival, o primeiro dia a esgotar, conhecido como o dia do pop, surpreendeu em locais inusitados, entregou muitas super produções e encontros valiosos. Ainda assim, não conseguiu escapar de alguns contratempos que comprometeram a dinâmica do festival, abrindo alertas para a organização do Rock In Rio.

Dono de polêmicas, o dia 4 iniciou suas atrações principais com Matuê no Palco Sunset. Trazendo a irreverência de um artista jovem e de recém sucesso, Matuê divertiu o público e fez a Cidade do Rock entonar alto os seus sucessos. Vale ressaltar a presença de várias pistas de skate no palco, onde uma trupe de skatistas performou manobras, trouxeram autenticidade e ilustraram muito bem o trap nacional no Palco Sunset. Particularmente, não sou fã do gênero, mas há de se reconhecer o prazer de ver artistas incipientes ganharem os palcos do Rock In Rio com raça e desejo. Matheus Brasileiro, o famoso Matuê, transbordou a todo momento seu desejo de integrar a riquíssima line do evento, e em sua consciência da grandiosidade do lugar que ocupava, fez acontecer no festival.

Matuê no Rock In Rio por I Hate Flash/Woloch (reprodução)

Se no Sunset o dia iniciou com novidade, no palco Mundo quem reinou foi a tradição. Inseridos de última hora em função do cancelamento da banda de rap Migos, Jota Quest subiu ao palco em meio a muitas críticas a respeito da substituição. Apesar da atmosfera não tão receptiva, o público não pode evitar se render aos clássicos milenares da banda e gritou alto com os sucessos “Além do Horizonte”, “Só hoje” e “O sol”. Mereciam o Palco Mundo? Se a escolha tivesse sido feita a longo prazo a resposta é curta e clara, não! A banda, que não lança músicas inéditas desde 2015, definitivamente não comporta os apelos do Mundo de ser o palco onde tocam os artistas que o público “vai para ver” e/ou que entregam super produções cuja estrutura grandiosa é capaz de potencializar.

Jota Quest não enquadrava em nenhum dos dois, entregaram um show sem grandes surpresas, mas que explora a capacidade máxima do que propõe a banda e, felizmente, conseguiram segurar o público em sua potência de emocionar de um jeito quase nostálgico a quem os assiste.

E por falar em merecer Palco Mundo, não há dúvidas que a próxima a ser promovida será ela. Luísa Sonza é a prova de que música pop não é bagunça e que um show de arrepiar se faz com muito ensaio e dedicação. Já há algum tempo que a artista vem anunciando que seu show do Rock In Rio seria o maior de sua carreira, sendo o primeiro da nova turnê “O conto dos dois mundos”, e de fato, Luísa, junto com toda sua equipe, entregou 1h de puro talento, seja nos vocais, figurino, balé, banda, cenário ou performance. Assim como Matuê, sua alegria de estrear no festival transpareceu e fez o que era um show milimetricamente ensaiado ganhar emoção e vida no palco.

Investindo em sua nova era, a cantora trouxe todos seus sucessos em uma estética que conversa com o rock e deixou os fãs animados para os próximos passos da carreira da cantora. A parceria com Marina Sena foi uma feliz escolha que explorou bem a química entre as cantoras e potencializou os sucessos de “Hotel Caro” (collab com o Baco Exu do Blues) e “Por Supuesto” (música de Marina), além de dar espaço para uma artista recém revelada, mas com tanto potencial, como Marina. Luísa lotou o Palco Sunset, colocando todo mundo pra dançar e se emocionar, se consagrando como o melhor o show da noite.

Luísa Sonza e Marina Sena no Rock In Rio por I Hate Flash/Amanda Melo (reprodução)

É difícil ter que dizer isso, mas, infelizmente, o show de Iza não correspondeu as grandes expectativas que sua performance em 2019 no Palco Sunset instaurou. Apesar de ter entregado muitos significados, alguns fatores impediram que seu talento explodisse por inteiro na Cidade do Rock. Dentre eles, e aqui citamos a escolha comprometedora do Rock In Rio de colocar dois artistas com uma fan base gigantesca (aka Justin e Demi) no mesmo dia, a prevalência de beliebers e lovatics na grade, que por sinal estavam lá desde o início do festival, fez com que a potência presente nos palcos não descesse com tanta força para a plateia. Além disso, a inclusão do recente EP “Três” no repertório desanimou a plateia que não conhecia as músicas lançadas apenas dois dias antes do festival.

Iza no Rock In Rio por I Hate Flash/@diegopadilha (reprodução)

Por outro lado, Iza proporcionou momentos emocionantes, como sua entrada no show pelo meio do público com a seguinte fala: “Alguém aqui me assistiu em 2019? Olha nós aí, Rock in Rio”, além da aparição de sua foto curtindo o festival da plateia em 2011, uma bela referência. A banda e os mais de 20 bailarinos impulsionaram o show e deram o tom de super produção que o Palco Mundo merece. Além disso, a presença de uma equipe exclusivamente negra no palco trouxe uma das principais mensagens que o show carrega: a celebração da negritude. Nesse quesito, não há como deixar de falar do momento em que a mãe de Iza, Isabele Cristine, surgiu no palco tocando piano no cover de “No Woman No Cry”, momento que sucedeu o ponto alto do show: Iza sendo coroada de joelhos por sua mãe, uma celebração digna da primeira mulher negra brasileira a pisar no Palco Mundo.

No outro grande festival brasileiro, o Lollapalloza, Emicida entregou um show com mensagens de esperança, flertou com o gospel e contou com a participação do Pastor Henrique Vieira. Já no Rock In Rio, as coisas foram diferentes, deixando de lado as canções do álbum AmarElo e investindo em um tom de protesto, o rapper questionou, inclusive, o próprio Rock In Rio.

Diferente do que afirmou Roberta Medina, vice-presidente do festival, Emicida fez questão de dizer em seu show que: “Tem gente dizendo que não é de bom tom falar de política no palco de festival. Mas, se eu estou vivo aqui, é porque o Racionais decidiu falar de política 30 anos atrás”. Se engana quem achar que a mudança é despretensiosa, Emicida como o artista sábio e engajado que é, certamente pretendia evocar uma mensagem diante do conturbado cenário político que se aproxima. E conseguiu. O público respondeu em alto e bom tom “Ei, Bolsonaro, vai tomar no c*sendo respondidos pelo cantor com “É difícil ouvir o que vocês estão dizendo. Podem falar mais alto?” e “Obrigado. Vocês são f*da. E dia 2 de outubro, façam isso na urna”. Ainda que com uma pegada mais densa, a presença de Priscilla Alcantara, Rael e Drik Barbosa foi uma ótima forma de contrastar o canto marcado do rap com momentos mais melódicos.

Emicida no Rock In Rio por I Hate Flash/Woloch (reprodução)

Quem já acompanha o trabalho de Demi Lovato ou mesmo escutou o álbum HOLY FVCK já estava a par do que ela iria entregar no Rock In Rio, o problema é que, se tratando de um festival, o público é muito diverso, e, portanto, para levantar a plateia é necessário mais que autenticidade. O que não é um pro ou um contra, mas uma escolha.

Demi Lovato pode e deve cantar as músicas de HOLY FVCK, que hoje a representam muito mais como artista e pessoa, ou mesmo adaptar os grandes sucessos para sua era rock. Porém, o preço disso é uma plateia que, potencializada pelo som que estava baixo (falha grave do Rock In Rio), vibrou pouco com a performance da cantora. Nem mesmo os grandes clássicos repercutiram como o esperado. A cantora também não parecia exatamente animada, como vimos no primeiro show em São Paulo, o que é de se entender tendo em vista sua conturbada vida pessoal, e interagiu pouquíssimo com o público.

Ainda assim, é inegável que Demi se encontrou no ritmo. Acompanhada por uma forte banda só de mulheres, a artista explodiu no palco com todo seu potencial vocal e carga dramática das canções. Do álbum novo, “29” foi a responsável por reverberar mais entre o público, sendo superada apenas pelos clássicos “Cool for the Summer”, “Heart Attack”, “Sorry Not Sorry” e a emocionante “Skyscraper”.

Ao longo dessa crítica, exaltamos algumas vezes a gama de artistas incipientes que fazem valer suas primeiras aparições no Rock In Rio, mas aqui exaltamos a energia de quem, mesmo tendo participado da primeira edição do festival, 37 anos depois ainda consegue contagiar o público com sua alegria de subir aos palcos. E como não há nada mais precioso para um artista do que o desejo, mesmo subjugado na line up do dia 4, Gilberto Gil se destacou como um dos melhores shows da noite.

Agraciado pela presença de sua neta Flor Gil, dona de uma voz encantadora com a qual cantou “Garota de Ipanema”, seu neto Francisco Gil, da banda “Gilsons” e sua filha Preta Gil, o mestre da música brasileira parecia estar em casa: sambou, dançou, abraçou e fez o palco Sunset se deliciar com seus sucessos como “Andar com Fé” (que ele dividiu com Francisco e Preta), “Toda Menina Baiana” e “Aquele Abraço”. Apesar de serem sucessos de longa data, foi um prazer ver essas canções serem reiteradas com a presença da família nos vocais e instrumentos, a dose de novidade que tornou o show ainda mais encantador. Afinal, dentro de um festival que se presta a homenagear a música, nada melhor que ver ao vivo, um dom e uma força musical que perpassa gerações e beira o sobrenatural com sua simplicidade. A família Gil é um grande tesouro nacional digno de ser reverenciado nos palcos do Rock In Rio.

Emicida no Rock In Rio por I Hate Flash/Ariel Martini (reprodução)

Acredito que, assim como eu, a grande maioria que viu o show do Justin Bieber ao vivo ficou surpreso. Talvez pelas baixas expectativas de que ele sequer aparecesse, claro! Mas ao mesmo tempo, a escolha do repertório, as dancinhas de Justin, a energia do público e também a ajudinha básica do Rock In Rio com os fogos de artifício alçaram o show para o top 3 da noite, ainda que esse tivesse potencial para top 1.

É difícil opinar a respeito do desempenho de Bieber, a controvérsia sobre o uso ou não de playback (muito aparente nas gravações, mas inotável no ao vivo) e a má vontade antecipada do artista (que independente das motivações careceu de um diálogo maior com o público), foram todos fatores que fizessem com que nossas expectativas ficassem baixíssimas e assim ele nos surpreendesse quando demonstrasse qualquer entrega no palco.

Certamente se outros artistas, que não o headline ou o exaltado “Justin Bieber”, tivessem cometido as mesmas falhas, especialmente as mulheres, sabemos que a perspectiva seria outra. O que posso dizer, como espectadora, é que mesmo sem ser fã, me diverti bastante e foram raros os momentos em que me desconectei do show. Como dito, grande parte dessa responsabilidade é alheia ao artista e intrínseca a atmosfera que foi criada para o show dele. Justin foi muito, mas com certeza poderia ser mais.

Se é que ainda não tenha ficado claro, o Palco Sunset dominou o dia 4. Ainda que Justin Bieber e Demi Lovato tenham sido os responsáveis por lotar o festival, as transformações que acompanharam os artistas ao longo dos anos criaram um abismo entre o que esperava o grande público e o que os artistas tem a oferecer em suas novas fases. Já os artistas nacionais, em especial Sonza e Gil, souberam gozar melhor da expressão que marcou o dia 4: “pop”, no sentido popular da coisa, se entregando as graças do público sem deixar de lado suas potências e se divertindo em divertir. Uma boa aula para quem ainda acha que a cena nacional não é capaz de se igualar (ou mesmo superar) o cenário internacional.

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