Em Punisher (2020), Phoebe Bridgers flertava constantemente com a ideia de desaparecer. Por uma ironia que permeia o humor ácido que a artista imprime em sua escrita, esse, na verdade, foi o holofote musical da cantora. Impulsionado pela pandemia, a atmosfera intimista e as letras que, de tão cruamente humanas, falavam dela e de todo mundo, Phoebe se tornou uma espécie de cronista do zeitgeist na, até então, década perdida do terceiro milênio.
De fato, Phoebe, enquanto pessoa, cumpriu com o que cantava e sumiu, mas sua carreira chegou aos ouvidos da audiência e sua vida, principalmente o relacionamento com o ator Paul Mescal e a amizade com Taylor Swift, a colocou na mira da imprensa. Como resultado, ela desapareceu de vez, salvo o ótimo the record (2023), debut de seu projeto boygenius. Porém, com seu aguardado retorno, concretizado com seu terceiro disco, Lost Weekend, esse intervalo de seis anos em sua discografia solo nem é sentido.
Isso acontece, pois a audiência que a descobriu cresceu com Punisher cantando sobre a sensação de fim de mundo de suas próprias vidas em um período extremamente introspectivo e solitário (como o próprio álbum). Agora, no novo registro, essas mesmas pessoas, com a passagem do tempo, veem uma Phoebe mais madura, justamente quando esses novos ciclos trazem também novos anseios.
Lost Weekend faz questão de deixar claro que esse é um novo ciclo, seja na carreira ou na vida da artista. O tempo de espera entre esse e Punisher é o dobro , comparado com o do segundo disco para com Stranger in the Alps (2017). E, logo nos primeiros segundos de “The Outsider”, faixa-abertura, o vocoder e os sintetizadores anunciam que a persona acústica dos discos anteriores foi trocada, sendo utilizada apenas como elemento e dando lugar a uma sonoridade bem mais experimental, passeando pelo country até o synth pop.
Phoebe é até mais otimista aqui. O primeiro e único single do projeto, “Lost Boys” é, melodicamente, muito mais alto-astral que as ótimas “Smoke Signals” e “Garden Song” das eras anteriores, e, sendo a faixa mais palatável para o mainstream, fica claro o porquê da escolha dele encabeçar a divulgação do disco. E essa postura conversa diretamente com o amadurecimento da intérprete. Se em Punisher ela era imediatista a ponto de querer se jogar de cabeça no apocalipse, em Lost Weekend, ela percebe que há um depois para cada fim do mundo.
Mas não se engane, a artista ainda é a melancolia em pessoa nesse registro; o que muda são as temáticas e a ótica direcionada a elas. Nesse intervalo de seis anos, além do término com Mescal, Phoebe também perdeu o pai, com quem teve uma relação bastante turbulenta. Faixas como “The Governor’s Waltz” e “Never Going Back!” deixam bastante explícito como esses dois temas orbitam toda a obra.
A escrita da artista sempre foi um dos pontos altos, e aqui ela se potencializa. Além das várias referências inseridas nos versos, Phoebe se mostra ainda mais honesta no papel de narradora: ela não está interessada em ser mocinha, vilã ou vítima de sua própria história – mesmo em assuntos bastante delicados –, apenas em externalizá-la através da música para se conectar com sua audiência.

Além disso, Lost Weekend tem talvez as linhas mais dilacerantes do ano, como, por exemplo, “I can’t imagine you dead/ but you are everyday/ Thank you for everything” em “Still Standing” e “You know me, and I’ll never forgive you for that” na faixa-título.
Mas uma das grandes surpresas é “Bobby”. O relacionamento da cantora com o comediante Bo Burnham nunca foi tão bem digerido pelo fandom, mas a faixa, que foi co-escrita pelo próprio Burnham, mostra um eu-lírico que, entregue à paixão repentina, rompe com as espirais de luto – ela é inclusive posicionada entre duas faixas direcionadas ao ex – e faz criar certo apreço com o casal.
Com produção de Tony Berg e Ethan Gruska, Lost Weekend também conta com Jack Antonoff e Alex G nos bastidores, além de uma série de participações, que vão desde suas companheiras de boygenius, Lucy Dacus e Julien Baker, passando por Mike Kinsella, guitarrista do American Football, e até mesmo o queridinho frontman do Geese, Cameron Winter (ou Son-John Johnson para os íntimos). Esse time, somado às influências de LCD Soundsystem, Sufjan Stevens e Elliot Smith que Phoebe traz, transforma o disco em algo mais encorpado, envolvente e rico musicalmente.
A artista sempre foi conhecida por conseguir criar um cenário por meio de suas letras, e isso ainda existe aqui, mas, dessa vez, quem toma esse protagonismo é justamente a produção. Comparado com os registros anteriores, o terceiro disco dá muito mais espaço para a instrumentação, com alguns segmentos exclusivos a ela. Isso faz com que as faixas assumam certa tridimensionalidade, é impossível dar o play e não se sentir preenchido pelo que é escutado. Indiscutivelmente, o registro é um dos melhores trabalhos de produção musical do ano.
No fim das contas, Lost Weekend é o retrato mais cru possível do tempo necessário para que fosse feito. Ao final das 16 faixas, fica claro que são esses momentos que construíram a Phoebe Bridgers que aqui canta. Foi necessário o ‘fim de semana perdido’ no título, expressão em inglês para períodos de fuga autoimposta e planejada desde o álbum anterior, para que a artista olhasse de forma mais empática e acolhedora para a própria trajetória.
Com um trabalho impecável, a espera de seis anos se mostrou mais do que necessária, mas sim um recado de que novos tempos sempre chegam. E nada melhor que ouvir o anúncio desse novo ciclo por uma das vozes da geração.









